sábado, fevereiro 05, 2011

Muito Especial

Ele me chamou atenção pela primeira vez no auditório da Escola de Engenharia, assistindo a uma aula de Geometria Analítica. Sentado ao meu lado, um jovem magrinho levanta o braço e dirige uma pergunta ao professor.

Era apenas um entre os quinhentos rapazes que freqüentavam as matérias do básico. Voz cheia, de locutor de rádio, firme, desproporcional ao corpo franzino. A pergunta era inteligente e mereceu uma longa dissertação do professor.

Semanas depois nos encontramos na sala de desenho técnico, matéria que era meu terror. Paciente, me deu algumas dicas preciosas sobre perspectiva.

Aos poucos fui sabendo mais sobre ele. Tinha entrado na Universidade com 17 anos. Morava na Casa do Estudante e não tinha dinheiro nem para o lanche.

Tentava de tudo para conseguir uns trocados, incluindo vender carnê do Baú da Felicidade. Já tinha sido ajudante no cultivo de horta e escrevera carta que os meninos do orfanato enviavam para os padrinhos americanos, ao estilo da personagem do filme Central do Brasil. Foi auxiliar de alfaiate (onde aprendeu a passar camisas como ninguém), auxiliar de eletricista e por último dava aulas de matemática e física.

Estava deslumbrado com a liberdade de morar sozinho e ainda era muito religioso. Até os seis anos fora criado pela avó. Aos sete anos foi morar num orfanato junto com outras 99 crianças. Para ele a figura de pai e mãe era do casal que dirigia a instituição, e a única noção de família vinha da figura querida da avó.

Aos quinze anos, conheceu a mãe biológica e desgostou um pouco do que encontrou. Talvez ela fosse muito diferente da imagem que tinha idealizado. Do pai nunca soube sequer o nome. Ficava constrangido ao preencher fichas de identificação e indicar “pai desconhecido”.

O orfanato, mantido por missionários americanos protestantes, proporcionava uma educação muito rígida e de muita disciplina, incentivando fortemente os estudos e a prática religiosa. No recreio e nas horas vagas seu lugar preferido era a biblioteca da escola.

Aos quinze anos foi para o seminário para se tornar pastor. Primeiro porque era excelente orador, depois porque era excelente aluno: terminou o ginásio com média global 98, feito inédito até então.

Depois de dois anos no seminário desistiu de ser pastor. Queria ir morar na capital, entrar na Universidade, ser Físico Nuclear, experimentar a vida, viver por si mesmo.

Comeu o pão que o diabo amassou. Morou de favor aqui e ali até conseguir uma vaga na Casa do Estudante. Quando o conheci, já dava aulas de física numa escola de segundo grau.

Seu guarda-roupa tinha duas camisas, duas calças de brim, uma jaqueta jeans e um gravador de fita cassete (um Evadin) comprado a prestação. E muitos, muitos livros...

Sempre foi especial em tudo, até nos exageros.

Na busca de ganhar melhor passou num concurso para escrivão. De manhã era aluno da Física e militante de esquerda (um socialista cristão). À tarde, era escrivão, obrigado a ouvir os depoimentos dos presos da ditadura, no auge da repressão. Fazia o que podia...

Várias vezes foi repreendido pelo seu chefe, por participar de passeatas de estudantes. Com seu jeito de bom menino acabava por conquistar as pessoas e sempre achou quem o protegesse do pior. Até que um dia não suportou mais a pressão e se demitiu.

Foi trabalhar na Caixa Federal. Para desespero geral desistiu do curso de Física no semestre da formatura.

Foi começar tudo de novo no curso de Publicidade. Em pouco tempo obteve quatro diplomas: Publicidade, Relações Publicas, Jornalismo, Radialismo.

Foi aluno do primeiro MBA da FGV em Goiânia e as estantes para os seus livros já ocupavam uma parede na nossa casa.

Fez carreira na Caixa. Chegou a assessoria de imprensa da Presidência da CEF. Um dia, teve que escolher entre manter o cargo ou continuar a participar da liderança dos movimentos de esquerda. Deixou o cargo.

Idealista, sempre acreditou que podia fazer a diferença.

Aos poucos foi encontrando seu lugar no mundo.

Sempre foi um pai carinhoso e dedicado das duas encantadoras filhas e sem sombra de dúvida é um avô nota dez.

Publicou dois livros de poesia, tornou-se católico, desistiu da militância de esquerda, trabalha como um danado na empresa da qual é sócio e acredita que seu papel hoje é gerar empregos.

Dezenas de viagens ajudaram a aprimorar o domínio de francês, inglês e espanhol. Agora está aprendendo italiano. Apesar do pouco tempo livre que tem, nunca deixou de lado a literatura, sua grande paixão.

Sabe escolher e servir um bom vinho, adora Mozart, mantém o espírito divertido e o charme de sempre, já não é mais tão magrinho, e conseguiu um tom prateado nos cabelos.

E neste sábado ensolarado, a nossa casa parece cem vezes maior com a sua ausência.

Mas a sua presença na Flórida é de grande importância para ajudar o Craig e o Lucas enquanto a Maíra está no hospital aguardando a chegada do Benjamin.

E eu só posso agradecer a Deus todos os dias por ter na minha vida alguém tão especial, o meu Beto, ainda mais no dia de hoje, em que comemoramos o seu aniversário de 56 anos.

Feliz aniversário!!!

quarta-feira, agosto 23, 2006

A ARTE DE SER AVÓ

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...

Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações — todos dizem isto embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto — mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meus Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aquelas crianças que você recorda.
E então um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis — aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que os netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.

No entanto — no entanto! — nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, a rival: a mãe. Não importa que ela seja sua filha. Não deixa por isso de ser mãe do seu neto. Não importa que ela ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais.

Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais.

A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avô, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto.
Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café — café! — mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser e até fingir que está discando o telefone.

Riscar a parece com o lápis dizendo que foi sem querer — e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna.

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto.

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade e apoio... Além é claro das compensações....

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho — involuntariamente! — bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois, o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?

Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.


Texto de Raquel de Queiroz
Descoberto no momento de minhas reflexões como avó

quinta-feira, abril 06, 2006

Tanajuras Fritas



Dia nublado, prometendo chuvinha constante e insistente. Dia típico que as crianças detestam pois significa ficar trancadas em casa, na frente da TV, meio sonolentas, sem grandes perspectivas.

O cinza se espalha um pouco sobre a gente, diminuindo a luz externa, predispondo à introspecção nostálgica.

Abro a janela aos poucos, olhando para essa nublada manhã de sábado. Um barulhinho esforçado de asas chama a atenção, e aos poucos um inseto consegue levantar um vôo atrapalhado, mambembe, para se esborrachar no chão da sala. Era uma tanajura.

Olho com mais cuidado para o bichinho que virou símbolo da mulher de cintura fina e quadril largo. Há quanto tempo não revia esse inseto?

Olhando para a formiga alada viajo para minha infância, quando saía em busca de encontrá-las, com um vidrinho na mão, morta de medo que usassem o ferrão.

Meia dúzia de tanajuras no vidrinho valia um capítulo extra das longas estórias contadas por nosso vizinho baiano, apreciador ferrenho de uma fritada de tanajuras, iguaria esperada ansiosamente por ele e disponível somente em um curto período do ano.

Pois nosso vizinho baiano era pedreiro de profissão, morava sozinho num barracão nos fundos da casa da vizinha. Talvez tivesse uns 40 anos e era muito religioso. Chegava em casa às cinco da tarde, tomava banho, pegava seu fumo de corda e se sentava numa cadeira no alpendre da nossa casa, à espera da garotada.

Éramos uma meia dúzia de crianças na faixa de seis anos de idade. Era o final dos anos 50, e a TV ainda era privilégio de poucos. As estórias eram uma atração e tanto, ainda mais os enredos complexos e fantásticos de nosso amigo.

Havia regras bastante rígidas para participar do atento grupo de ouvintes: ter tomado banho, estar com os deveres escolares prontos e ter expressa autorização materna para cada sessão. Naturalmente, isso proporcionava às mães a oportunidade de negociar a concessão como um prêmio por bom comportamento.

As estórias eram contadas em capítulos e duravam semanas com peripécias ainda hoje presentes na minha frágil memória. Sempre havia um personagem de bom coração que enfrentava todas as peripécias possíveis em um mundo imaginário de inimigos cruéis. Mas o bem sempre vencia e o final era sempre feliz.

O grand finale era sempre no sábado, com mais tempo disponível, já que uma vez que escurecesse devíamos ir para a cama.

Mas no tempo das tanajuras a rotina se modificava. O dia continuava claro até sete horas da noite. Na folga da escola a meninada saia atrás das grandes formigas aladas que á noite iriam para a frigideira de nosso contador de estórias. Como recompensa pelo nosso esforço em garantir a rara iguaria, ele se desdobrava em capítulos mais emocionantes, que misturavam perigo, aventura, romance e busca incessante pelos ideais dos heróis, que sempre eram pessoas de carater louvável.

Uma aura de magia, fantasia, aventuras e desventuras, perigos inimagináveis nos transportavam para um mundo onde tudo podia acontecer.

Recheadas de conteúdo educativo e repletas de mensagens que ressaltavam valores fundamentais para o ser humano, as tais estórias aos poucos modelavam nossa visão do mundo.

O registro emocional que tenho ainda hoje desses finais de tarde desperta meus melhores sentimentos.

Sem o dom natural daquele bom homem, me esforcei muito para criar estórias e contá-las para minhas filhas. Muitas vezes dormi antes das meninas, sem concluir o enredo imaginado no carro, ao voltar do trabalho. Também lia os contos de Grim e as deliciosas estórias publicadas quinzenalmente pela revista Alegria.

Há pouco tempo atrás fiquei muito feliz pois minha filha mais velha se lembrava de um dos personagens, a sapinha Cristina.

Fico pensando hoje no potencial que as estórias têm de passar conceitos, e como podem ser importantes para imprimir, de forma profunda, os valores nos quais acreditamos. Nessa fase, as crianças não têm tantos filtros e barreiras que irão adquirir com o tempo.

Mas infelizmente temos terceirizado para a TV uma parte da missão de moldar os valores de nossas crianças.

Olho de novo para a tanajura que está parada no piso da sala, na mesma posição, meio debilitada. Uma nesga de sol se esgueira pela copa da árvore e abre uma área iluminada na grama. Com cuidado pego o bichinho e consigo devolvê-lo ao jardim...


domingo, outubro 02, 2005

De chuvas e ciclos


Pela janela vejo as folhas das árvores cairem às dúzias sacudidas por um vento forte. Olho para um céu ameaçador carregado de nuvens muito escuras, anunciando tempestade daquelas.

Não tenho medo, ao contrário. Sempre gostei das tempestades. Sempre me pareceram uma demonstração de força da natureza, uma forma de deixar claro quem tem a primazia num mundo em que os humanos parecem ter controle de tudo. De vez em quando a natureza se encarrega de nos obrigar a reconstruir, talvez para nos lembrar de não destruir.

Quase seis da tarde. Os tons cinza chumbo me obrigam a acender algumas luzes. Será a primeira grande chuva da temporada. Ainda não testamos a qualidade do telhado nem o escoamento de aguas da chuva na nova casa. Espero não ter nenhuma surpresa.

No cerrado, as chuvas terminam em abril e recomeçam em setembro. Às vezes começam de mansinho, um chuvisco de nada. Ou esperam um dia muito abafado como o dia de hoje para fazer uma estréia triunfal, digna de uma ópera de Wagner. Em Goiania nunca temos inundações pra valer. Há muita área permeável e estamos longe de rios. Temos uns riachinhos de nada, que ás vezes até dão trabalho, mas não passa disso.

Então a chuva tem sempre um sentido positivo, de fecundidade, de oposição ao período da seca. Gosto de ver as gotas caindo. Quando criança ficava com o rosto colado na janela olhando para toda aquela água caindo com força. Á noite, gostava de ver os raios e os imaginava muito importantes para se fazerem anunciar com tanta pompa pelos trovões.

Pela manhã, o céu azul convidava a inspecionar as formigas, que no dia seguintes ás grandes chuvas de setembro, apareciam com asas e infernizavam a vida de minha mãe, que tinha que varrer as asas perdidas e espalhadas por toda a casa.

Ainda hoje não sei porque as formigas ganham asas nas noites de grande chuva...

Quando adolescente, um amigo querido me disse não gostar das tempestades. Ele as julgava um preço alto demais a pagar pelos dias de sol. Então dizia preferir todos os dias nublados. Na verdade, essa era uma forma de fugir de decepções, quase uma doutrina do tipo "melhor não ter para não perder".

Nunca consegui compartilhar desse sentimento. Os dias de sol trazem um encantamento às pessoas, às plantas e à vida. A chuva não é um preço a pagar. É um contraponto. Como ilusão e decepção. Esperança e lágrimas. Amor e abandono.

Como seria uma vida sem amores nem dissabores? Sem altos e baixos?

O cerrado é pleno de constrastes e de ciclos muito claros. Os mesmos campos que hoje estão ressequidos, semi mortos, soterrados sob um lençol de folhas secas, vão despertar após a primeira grande chuva e preencher a paisagem com um verde novinho, verde alvissareiro de folha recem nascida.

E em poucos dias tudo renasce sob o som estridente das cigarras, arautos infaliveis da primavera, trazendo à alma o sentimento de renovação, de recomeço, de novo ciclo...

quarta-feira, junho 22, 2005

Do adeus dos outros


Me impressionou profundamente o título do post do Milton: "o adeus dos outros" publicado há tempos atrás. O post aborda o tema "blogar or not" mas pende para um outro assunto de forte relevância, muitissimo humano e presente nas nossas vidas: persistir ou desistir.

Há muitos anos atrás li a frase: " A escolha traz em si uma perda" e pela primeira vez fui levada a pensar no "preço" de algumas escolhas que fazemos. Quando oscilamos entre desistir ou persistir não estamos fazendo mais que avaliar que preço estamos dispostos a pagar pela escolha de levar adiante um sonho, um afeto, um projeto, quando já não parece tão leve o fardo. Se estivesse leve não havia porque se questionar.

Raramente questionamos a leveza, o prazer, o afeto, a comunhão. Estas são fontes nas quais bebemos sempre com avidez. Questionamos o prazer dificil, o afeto raro, o sonho adiado, o projeto sacrificante, a aridez, a carência, a não sintonia.

E o que é "o adeus dos outros", senão uma prévia dolorida do nosso adeus, e uma forma terceirizada de reavaliar as escolhas que fazemos, e reiterá-las ou não. Ás vezes devemos perseverar, e de alguma forma encontrar forças para manter afetos, sonhos e projetos. Ás vezes devemos dizer adeus, ainda que olhando para trás...

E o meu mais novo aprendizado, fruto de algumas perdas de dificil reparação, me ensinou que existe ainda uma terceira alternativa: a de voltar atrás em algumas escolhas feitas, e, se a vontade for suficiente, ter coragem para retomar, reatar, reiniciar, reviver...

P.S. - Republicação para testar se o blog ainda está vivo


sábado, fevereiro 12, 2005

Cores do mundo interior

Como não tinha percebido antes?

Há uma cor para cada fase da vida, para a natureza e para as faces do mundo interior.

No inicio da vida adulta a descoberta do lilás: mistura equilibrada de rosa e azul claro, a combinação perfeita para definir o encontro do masculino e femino. Lilás nas cortinas e na cama. E a profunda busca de encontrar a alma irmã, o lado azul claro que me faltava...

Com vinte anos dominavam os tons das folhas dos plátanos em todas as suas variações definindo o estado de espírito da estação. O verde brilhante indicava os tempos com sol. Nas ruas de Porto Alegre, as folhas no chão indicavam que o semestre estava próximo de terminar, e com ele as temíveis provas da Escola de Engenharia.

Depois dos 30 anos a força do vermelho e do tons alaranjados orquestravam uma certa ode aos sentimentos contraditórios. Ás vezes nas roupas, o dominio das cores quentes predominavam nos conflitos interiores e na insana luta do cotidiano.

Perto dos 40 anos predominaram os tons amarelo queimado, como se aos poucos as chamas fossem cedendo lugar ao caramelo que passou a vestir as cadeiras e as camas da casa.

Numa fase já mais recente, pós 50, o branco e preto, simples, sóbrio, minimalista, passou a definir uma escolha de quem não quer se perder nos detalhes, pois não tem mais todo o tempo necessário para descobrir o mundo...

Como não tinha percebido antes?


sábado, fevereiro 05, 2005

O primeiro meio século

Zadig faz 50 anos


E o que posso fazer é tentar almofadar ainda mais a sua vida...





quinta-feira, dezembro 16, 2004

O ano se vai

O ano se vai...
Em marcha acelerada, as páginas da folhinha dançam ao sabor dos ventos que as levam, sabe Deus para onde... E em sua trajetória os dias tecem uma longa teia de sentimentos, elos, imagens, sensações.
Em sua lida o tempo pulveriza mágoas, constrói lembranças e cicatriza feridas abertas por dias que já se foram...
"De longe todas as serras são azuis" me dizia um querido amigo. De fato, vistas de longe as mazelas do cotidiano são fatos menores.
As lembranças que arquivamos em nosso baú de tesouros vêem de instantâneos capturados ao sabor de nossa disponibilidade emocional de perceber a beleza ou a importância de um momento.
É um fugaz raio de luz em uma face amada, uma palavra doce, a fumaça de um arroz recém preparado, a pergunta inesperada de uma criança, as perdas que enfrentamos, um cheiro que transpira infância, uma florzinha amarela banal ou um trecho de música que nos remete a um passado distante...
E ao olhar para esse ano que enfileira seus últimos recursos penso nas perdas e ganhos, nos momentos dificeis e nas alegrias que não faltaram.
Foi um ano diferente. Por um lado uma perda emocional de dificil superação. Pessoas muito queridas estão distantes. Por outro lado pessoas adoráveis e que fazem a diferença mostram que a vida se recicla como nas estações do ano.
No reveillon, quando o novo ano chegar, reservarei uma taça de champagne a esse ano tão diferente em minha vida. Talvez o ano em que tive mais alegrias em relação a todos os outros. E que também me trouxe dores muito profundas.
Vendo esse 2004 assim, quase terminando, penso em como a vida escorre célere seus minutos mas sabe nos deixar as necessárias lições.
E olhando para 2005 que está a caminho penso que os sonhos são mesmo o melhor combustível de uma vida.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Feriado da República

Quase dezoito horas de segunda feira do feriadão.

O feriadão com direito a viagem a Pirenópolis e extravagâncias de sol, comida, vinhos, livros e excelente companhia, só teve de ponto baixo os garantidos e merecidos kilos a mais.

E agora essa janela temporal começa a se despedir em raios de sol amarelados, que entram sem convicção pela porta de vidro, junto com um bando de muriçocas.

O locutor da Nostalgie anuncia a musica " Fio Maravilha" cantado em francês pela Nicoletta e garante aquele tom de voz meio final de domingo. Para ele, transmitindo pela Internet uma excepcional programação da velha e boa música francesa, já são onze horas da noite de uma segunda feira normal de trabalho para os parisienses.

Mas para mim é como se fosse o final de domingo.

Penso nesse sentimento universal que nos acomete no final do domingo, no final do verão, no final da festa, no final das férias.

Acho que está ligado principalmente ao sentimento de "final". É quase um esvaziamento emocional antes de começar de novo. Sim, porque depois do feriado tudo recomeça, tão certo como o sol se porá daqui a pouco e reaparecerá amanhã cedinho.

E então me vem á mente uma frase do Luiz Fernando Veríssimo que adoro:
"Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo."
Gostaria de pedir a ele para acrescentar: " e para os finais de domingo, coragem..."

domingo, outubro 24, 2004

Em 30 anos

Minha geração assistiu a mudanças de métodos e tecnologia que parecem inacreditáveis vistos de hoje.

Numa conversa casual contei para minha filha que estuda Engenharia Eletrônica, que eu usei Régua de Cálculo e Manual do Engenheiro nos dois primeiros anos de Engenharia. Como assim régua de cálculo? Quando expliquei ela teve uma crise riso. Eu justifiquei dizendo que o homem foi a Lua apoiado no trabalho de engenheiros que também usavam régua de cálculo. Ela não conseguia acreditar.



Em 1972 eu trabalhava na Caixa Econômica Federal e meu serviço era ajudar a lançar o movimento diário na ficha dos correntistas.

O lançamento era feito numa máquina Audit da Olivetti, que possuía duas memórias mecânicas e somava as colunas do débito e do crédito separadamente, atualizando os saldos nas fichas dos correntistas com segurança e rapidez.

No final do dia somávamos os cheques, as retiradas e os depósitos em calculadoras também mecânicas para conferir o fechamento do movimento. No final do serviço meu braço doía pois essas máquinas eram todas movidas por pequenas manivelas laterais, mas era um trabalho muito conveniente pois era feito no final do dia e a noite o que me permitia ir para a faculdade na parte da manhã.



Nessa mesma época iniciamos a implantação de um sistema informatizado de processamento da conta corrente. Foram meses e meses para passar as informações das fichas amarelas para o novo sistema. Nessa mesma época eu estudava Fortran na faculdade e estava bastante familiarizada com os segredos dos cartões perfurados e dos relatórios de critica emitidos pelo computador mais moderno da época, o IBM370.

O novo sistema emitia uns papeizinhos que eram chamados de slips e que continham os lançamentos do dia anterior já processados. Como a Agência só recebia uma cópia do relatório, os caixas consultavam os saldos nos slips que ficavam num plástico organizado em ordem alfabética. O problema é que os slips vinham em ordem de conta corrente. Era preciso, todos os dias, colocá-los em ordem alfabética para serem consultados no dia seguinte. Durante o dia todos os lançamentos eram feitos á mão.

Em 1976, já morando em Porto Alegre fui trabalhar na compensação de cheques, onde os cheques em organizados pelo código das agências. Na sala havia grandes escaninhos de madeira com pequenos nichos e rotulados com o código da agência. Nosso trabalho era separar e somar os lotes de cheques em calculadoras elétricas da Burroughs, moderníssimas.



Qualquer problema mais urgente era comunicado às Agências usando outro equipamento também moderníssimo, o telex, uma espécie de telegrafo movido a fita perfurada e que era capaz de transmitir uma mensagem através da Embratel para outros aparelhos de telex em tempo real. O barulhinho do telex me ressoa nos ouvidos ainda hoje, tantas vezes o ouvi.

Parece muito arcaico visto de hoje? Pois isso aconteceu há menos de 30 anos.

Eu mesma as vezes fico surpresa de pensar que nossa geração usou o cartão perfurado e hoje convive com o Palm Top e a Internet.

Muito pouco tempo para uma revolução gigantesca.