sábado, maio 16, 2020

Uma criança idosa - Parte 3


Um milagre por dia

Hoje completa um mês do AVC de mamãe. Um longo e escorrido mês, onde esperança, fé e o carinho da família e dos amigos trouxeram a força necessária. Foi também um mês de inacreditáveis avanços. Quase um milagre por dia.

O primeiro diagnóstico pós AVC foi de altíssimo risco com as próximas 24 horas de absoluto cuidado e monitoramento na UTI e real possibilidade de que mamãe não sobreviveria.

Aprendemos que para o paciente com AVC existe uma escala de risco que muda com um ritmo mais ou menos constante. Primeiras 12 horas, 24 hs, 3, 7, 14 e 21 dias. Não tínhamos a menor ideia do que teríamos pela frente, o que aliás é uma boa coisa pois esse desconhecimento nos poupa algum sofrimento.

Nós todos da família passamos por várias fases mais ou menos nessa mesma escala. Viemos do atordoamento da primeira notícia para o desespero com a gravidade do quadro. Aos poucos a esperança nos animou e nos trouxe nova e boa perspectiva.

Mamãe tem 85 anos e apesar da excelente saúde tem a natural fragilidade que a idade impõe. Mas é uma mulher aguerrida, forte, lutadora e perseverante.
Sempre foi assim.

Mas uma doença grave é uma luta para a qual nunca estamos preparados, nem devemos estar. Há muitas outras provações na vida, mas certamente as mais duras são a perda de pessoas muito queridas e as doenças graves.

Felizmente ela não tem consciência o tempo todo do que aconteceu.

Nossa família se uniu em torno dela, com carinho e presença constantes. Seus nove filhos e os netos mais próximos estiveram ao seu lado em um revezamento continuo e estou certa de que essa proximidade foi muito importante para ela se sentir viva, amada e rodeada pelos seus.

É claro que na UTI as visitas eram restritas e curtas, os dias e as noites se misturavam numa continuidade interminável.

O hospital Santa Monica dispõe de uma UTI humanizada, separada das demais, para pacientes vítimas de AVC. Depois de uma semana mamãe podia receber três visitas por dia. Às 10h, ao meio dia e às 16h com duração de até meia hora. Na segunda semana ela passou a ser acompanhada por uma cuidadora, na UTI mesmo.

Estive com mamãe todos os dias desde que cheguei de viagem. Não foram fáceis os 21 dias de UTI.

Agora posso afirmar com certeza, e com conhecimento de causa, que essa provação não pode incluir nem desânimo nem falta de fé, senão a carga fica maior que podemos suportar. O apoio da família, dos amigos faz toda a diferença quando nos falta chão.

Nesses momentos o desânimo é o golpe de misericórdia que nos leva a desabar quando a paulada é grande. Todos nós temos nossas fraquezas e com certeza vacilamos diante de provações. A fé é um poderoso recurso para buscarmos o ânimo e a energia imprescindíveis para seguir em frente. Não estou falando da fé cega.

Esta faz muito bem, mas poucos são os que conseguem ter uma fé cega e inabalável.
Falo da fé humana, da fé que surge da fragilidade, da sensação de desamparo, que pede ajuda, que se deixa ajudar, que roga a Deus mais energia porque já não pode encontrá-la mais em si mesmo.

Quando se acredita com todas as forças de que dispomos nasce energia mesmo quando ela já se esgota. Essa fé é reconfortante e pode fazer uma enorme diferença nos momentos decisivos.

A frase biblica que diz que “a fé remove montanhas” tem todo sentido porque a fé movimenta a vontade que por sua vez arrebanha uma poderosa energia dentro de nós.
O medo paralisa e tem foco na sombra. A fé impulsiona e tem foco na luz. A fé pode ser traduzida como uma vontade firme de superar, de atravessar o vale escuro, de vencer a provação.

Passados os 21 dias mais dois no quarto e mamãe foi liberada para vir para nossa casa.
Na saída do hospital eu e o Beto agradecemos muito ao Dr. Pedro Jorge Gayoso, responsável pela UTI do Sta Mônica, que além da competência profissional sempre foi muito atencioso com mamãe e conosco.

Fiquei emocionada ao dizer a ele que não tínhamos como agradecer o cuidado dele que foi decisivo para a recuperação dela. E ele me respondeu que esse reconhecimento fazia valer seu esforço e dedicação.

Neste longo mês nosso lema tem sido uma luta e um vitória por dia e cada uma muito comemorada.
Um grupo whatsapp de toda a família para comemorar os avanços e um mais reservado, só dos irmãos para tratar também das dificuldades.

As visitas dos filhos e netos são sempre o ponto alto do dia dela. No domingo fizemos um almoço reunindo boa parte da família em torno dela para que ela se sentisse rodeada de afeto.

São muitas as vitórias a festejar até aqui: frases mais longas, uma volta no andador, sentar na mesa para a refeição, segurar a própria xicara, ler algumas manchetes da revista Veja.

As lutas também: muitas noites de insônia e de medo em que ela se agarrava a minha mão e pede que eu não deixasse só. Ou momentos em que chamava pelos filhos um a um, pedindo que a levasse para um lugar com mais ar pois estava sufocando.

Ou queria que desligássemos todos os computadores que estavam impedindo o seu sono – esse um resquício dos ruídos dos monitores da UTI com seus apitos a intervalos regulares.

O medo de ficar só e a falta de ar também um resquício do momento em que ela teve o AVC pois ela estava só, e já foi encontrada caída no chão. Mesmo durante o dia é preciso segurar sua mão quase todo o tempo para mantê-la mais calma.

Não tenho saído de casa em nenhuma hipótese. Durante o dia a ressaca da noite mal dormida me impede de levar minhas atividades adiante. Tenho vivido 24 horas por dia em torno de remédios, cuidados, atenção e alguma pesquisa na internet para entender melhor o que está acontecendo.

Mas o tempo todo agradecendo a Deus o privilégio de poder cuidar de minha mãe e contar com o apoio irrestrito do meu marido, das filhas e dos meus irmãos que estão sempre ajudando.

E principalmente pela sorte de não estar precisando ser cuidada, pelo contrário, tendo força e fé para ajudá-la.

terça-feira, 14 de março de 2017

Uma criança idosa - Parte 2

Caindo a ficha

Se você quiser saber como tudo começou, você pode conferir clicando aqui

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Mais uma noite em claro. Prática como sou aproveitei as horas em claro para organizar uma lista do que tinha que fazer durante o dia, além é claro de colocar a bagagem nas malas. Seria uma longa sexta feira pois o vôo da American Airlines iria decolar às 22h30.

Previsão de chegada em Brasília às 9 da manhã, mais 3 horas de carro até Goiânia. Recebemos a instrução de ir em casa e tomar um banho antes de ir ao hospital pois ambiente de aeroporto e avião tem bactérias e germes demais.

Uma hora da tarde estávamos na UTI para ver mamãe.
A imagem daquela senhorinha frágil e encolhida na cama da UTI foi de cortar o coração. Muito diferente da pessoa que um mês antes havia viajado sozinha para São Paulo para visitar os dois filhos que moram lá.

Ela havia me pedido a passagem aérea de presente de Natal. Ela sempre gostou de viajar e passou para os filhos a importância de ter mente aberta.

Aos 72 anos, minha mãe viajou sozinha em umas férias curtas para o Chile onde não conhece vivalma.

Filha de família pobre no interior de Goiás, D. Carmem passou a infância às margens do Parnaíba, em uma casinha de pau-a-pique.

Sem nenhum incentivo para isso, se afeiçoou aos livros, obtidos com dificuldade e lidos com a escassa luz de lamparina, sob as broncas do pai, preocupado com o consumo de querosene, coisa de luxo naquela época.
Aos 20 anos, seu primeiro parto foi de gêmeos, que morreram com menos de duas semanas de vida.

A próxima fui eu, doentinha e franzina. Nada parava no estômago da menina fragilzinha, sempre ameaçando ir seguir o mesmo caminho dos primogênitos.

Apavorada, D. Carmem tentou de tudo para dar sobrevida ao seu bebê. A eficiência da alquimia utilizada me garantiu um estômago de ema!

No total, oito filhos povoam a vida de D. Carmem, cada qual com sua série de filhos, garantindo muita gente à sua volta na sua terceira idade (ai de quem falar em velhice). O coração grande não se contentou com os oito filhos. Em tempos muito difíceis adotou uma afilhada, que considera como filha e que morou conosco desde os quatro anos de idade.

Quando apresentei a ela meu candidato a marido, ela se afeiçoou por ele de imediato e o adotou também.

O Beto e ela dividem o amor por livros e plantas.

Pois foi essa guerreira que estava na cama da UTI, meio confusa, meio lúcida, com os braços cheios de hematomas, a mão redonda de tão inchada.

Nos primeiros dias pós AVC é normal uma forte agitação do paciente, então ela estava amarrada na cama. Por determinação do médico estava sem a prótese dentária, uma espécie de de dentadura só que sustentada em implantes.

A falta dos dentes a deixava muito mais velha. Mamãe sempre foi muito vaidosa e jamais nos deixava vê-la sem sua prótese.

Perguntou se fomos bem de viagem e se o Sérgio, meu irmão caçula havia voltado da China. Pediu uma água gelada e um café quente. É claro que não podíamos atender nenhum dos dois pedidos.

Ficamos por dez minutos na UTI e fomos embora. Lá fora desabei de vez. O Christiano da The1 estava comigo e me abraçou carinhosamente.

Deus foi muito bondoso ao inventar as lágrimas pois chorar descomprime o peito e funciona como um banho de água morna: não cura a dor mas reconforta.

Já na sala reservada que a The1 mantém para seus clientes fui recuperando o controle. Tinha sido um golpe duro de aguentar, mesmo eu, um poço de racionalidade segundo meu marido.

Continua na parte 3

Uma criança idosa - Parte 1

O começo de tudo



Quem já viveu essa experiência sabe exatamente do que estamos falando.

Assim, depois de um AVC isquêmico, minha mãe de tornou uma criança que alterna lucidez com fantasia, momentos de calma com outros de completa agitação.

Ainda não entendemos muito bem como essa história começou.

Há muitos anos mamãe morava com meu irmão e passava o dia sozinha ou com a empregada.

Aos 85 anos estava lúcida e ativa. Cultivava suas rosas e plantas com amor desvelado, fazia palavras cruzadas, cozinhava, bordava e devorava livros e tinha uma alimentação muito saudável.  Às seis da tarde encerrava seu dia e ia assistir suas novelas favoritas ou ver filmes.

Sempre fez seus exames preventivos que terminavam sempre com elogios do médico. Mamãe, além de muito saudável sempre primou pelo otimismo e alto astral, mesmo em circunstâncias bem adversas.

De repente, um telefonema de minha filha Maíra liga o alarme: A vovó Carmem teve uma queda e está no Hospital. Em princípio não é grave, mas parece estar com uma hidrocefalia que precisa ser tratada por cirurgia. Atendi a ligação em Plantation na Florida, na noitinha de quarta-feira.

Minha filha não tinha muitas informações, mas seu tom era grave e indicava que havia mais do que aparentava. Assim liguei para minha irmã. Ela me tranquilizou, mas sua voz também indicava que as palavras não combinavam com sentimentos transmitidos pela voz.


Acusei o golpe com uma terrível enxaqueca e o máximo que consegui dormir naquela noite foram 2 horas. Meu marido também não conseguiu dormir. Passei parte da noite pesquisando vôos para nossa volta antecipada o mais breve possível, se possível no mesmo dia.

Se você nunca precisou fazer isso saiba que as companhias aéreas ganham muito dinheiro com as emergências. O valor do bilhete passa a ser cinco vezes ou mais o preço normal.

Na quinta de manhã antes de tomar café (a diferença de fuso era de 3 horas para menos) liguei para minha irmã para entender melhor a situação. Mamãe seria transferida para o Hospital Santa Mônica que teria melhores condições de atendê-la.

A noticia muito me alegrou pois o Haikal Helou, é um dos sócios do Santa Monica, é e meu amigo pessoal. Além disso, lá tem uma sala da The1 e poderíamos contar com a atenção especial do Christiano. 

A The1 sempre fez toda a diferença nos nossos problemas de saúde.

No Santa Mônica o diagnóstico do neurologista foi que mamãe teve um AVC Isquêmico e estava em estado grave. Ela não tinha caído e machucado como se pensava antes. Ela caiu em função do AVC.

Meu sobrinho a achou no chão logo no início e a acudiu. Mas todos pensaram que era uma queda sem graves consequências e ela foi ser examinada para verificar possíveis problemas decorrentes da queda.

Mamãe sempre foi muito independente e com seu otimismo nato sempre fazia questão de dizer que estava ótima.

Por último ela andava meio esquecidinha, falava a mesma coisa várias vezes. Mas encarávamos isso como algo natural da idade pois ela já tem 85 anos.  Em geral ela alternava os finais de semana na minha casa ou na casa de minha irmã, ou mesmo com algum dos seus 8 filhos.

Finalmente conseguimos vaga num vôo para o dia seguinte chegando em Goiânia no sábado de manhã.

Na noite de quinta minha irmã ligou para comunicar que o estado de mamãe havia se agravado muito e havia sérios riscos. Na UTI, estava sendo tratada para retirar água no pulmão, combater princípio de pneumonia, problemas de diurese e ainda com sangramento no cérebro pois começara um AVC hemorrágico também.
 
Aquela noite seria decisiva para ela.

Depois de desligar o telefone sai do hotel de carro, fui sozinha para um parque próximo, rezei e chorei muito.

sábado, fevereiro 05, 2011

Muito Especial

Ele me chamou atenção pela primeira vez no auditório da Escola de Engenharia, assistindo a uma aula de Geometria Analítica. Sentado ao meu lado, um jovem magrinho levanta o braço e dirige uma pergunta ao professor.

Era apenas um entre os quinhentos rapazes que freqüentavam as matérias do básico. Voz cheia, de locutor de rádio, firme, desproporcional ao corpo franzino. A pergunta era inteligente e mereceu uma longa dissertação do professor.

Semanas depois nos encontramos na sala de desenho técnico, matéria que era meu terror. Paciente, me deu algumas dicas preciosas sobre perspectiva.

Aos poucos fui sabendo mais sobre ele. Tinha entrado na Universidade com 17 anos. Morava na Casa do Estudante e não tinha dinheiro nem para o lanche.

Tentava de tudo para conseguir uns trocados, incluindo vender carnê do Baú da Felicidade. Já tinha sido ajudante no cultivo de horta e escrevera carta que os meninos do orfanato enviavam para os padrinhos americanos, ao estilo da personagem do filme Central do Brasil. Foi auxiliar de alfaiate (onde aprendeu a passar camisas como ninguém), auxiliar de eletricista e por último dava aulas de matemática e física.

Estava deslumbrado com a liberdade de morar sozinho e ainda era muito religioso. Até os seis anos fora criado pela avó. Aos sete anos foi morar num orfanato junto com outras 99 crianças. Para ele a figura de pai e mãe era do casal que dirigia a instituição, e a única noção de família vinha da figura querida da avó.

Aos quinze anos, conheceu a mãe biológica e desgostou um pouco do que encontrou. Talvez ela fosse muito diferente da imagem que tinha idealizado. Do pai nunca soube sequer o nome. Ficava constrangido ao preencher fichas de identificação e indicar “pai desconhecido”.

O orfanato, mantido por missionários americanos protestantes, proporcionava uma educação muito rígida e de muita disciplina, incentivando fortemente os estudos e a prática religiosa. No recreio e nas horas vagas seu lugar preferido era a biblioteca da escola.

Aos quinze anos foi para o seminário para se tornar pastor. Primeiro porque era excelente orador, depois porque era excelente aluno: terminou o ginásio com média global 98, feito inédito até então.

Depois de dois anos no seminário desistiu de ser pastor. Queria ir morar na capital, entrar na Universidade, ser Físico Nuclear, experimentar a vida, viver por si mesmo.

Comeu o pão que o diabo amassou. Morou de favor aqui e ali até conseguir uma vaga na Casa do Estudante. Quando o conheci, já dava aulas de física numa escola de segundo grau.

Seu guarda-roupa tinha duas camisas, duas calças de brim, uma jaqueta jeans e um gravador de fita cassete (um Evadin) comprado a prestação. E muitos, muitos livros...

Sempre foi especial em tudo, até nos exageros.

Na busca de ganhar melhor passou num concurso para escrivão. De manhã era aluno da Física e militante de esquerda (um socialista cristão). À tarde, era escrivão, obrigado a ouvir os depoimentos dos presos da ditadura, no auge da repressão. Fazia o que podia...

Várias vezes foi repreendido pelo seu chefe, por participar de passeatas de estudantes. Com seu jeito de bom menino acabava por conquistar as pessoas e sempre achou quem o protegesse do pior. Até que um dia não suportou mais a pressão e se demitiu.

Foi trabalhar na Caixa Federal. Para desespero geral desistiu do curso de Física no semestre da formatura.

Foi começar tudo de novo no curso de Publicidade. Em pouco tempo obteve quatro diplomas: Publicidade, Relações Publicas, Jornalismo, Radialismo.

Foi aluno do primeiro MBA da FGV em Goiânia e as estantes para os seus livros já ocupavam uma parede na nossa casa.

Fez carreira na Caixa. Chegou a assessoria de imprensa da Presidência da CEF. Um dia, teve que escolher entre manter o cargo ou continuar a participar da liderança dos movimentos de esquerda. Deixou o cargo.

Idealista, sempre acreditou que podia fazer a diferença.

Aos poucos foi encontrando seu lugar no mundo.

Sempre foi um pai carinhoso e dedicado das duas encantadoras filhas e sem sombra de dúvida é um avô nota dez.

Publicou dois livros de poesia, tornou-se católico, desistiu da militância de esquerda, trabalha como um danado na empresa da qual é sócio e acredita que seu papel hoje é gerar empregos.

Dezenas de viagens ajudaram a aprimorar o domínio de francês, inglês e espanhol. Agora está aprendendo italiano. Apesar do pouco tempo livre que tem, nunca deixou de lado a literatura, sua grande paixão.

Sabe escolher e servir um bom vinho, adora Mozart, mantém o espírito divertido e o charme de sempre, já não é mais tão magrinho, e conseguiu um tom prateado nos cabelos.

E neste sábado ensolarado, a nossa casa parece cem vezes maior com a sua ausência.

Mas a sua presença na Flórida é de grande importância para ajudar o Craig e o Lucas enquanto a Maíra está no hospital aguardando a chegada do Benjamin.

E eu só posso agradecer a Deus todos os dias por ter na minha vida alguém tão especial, o meu Beto, ainda mais no dia de hoje, em que comemoramos o seu aniversário de 56 anos.

Feliz aniversário!!!

quarta-feira, agosto 23, 2006

A ARTE DE SER AVÓ

Netos são como heranças: você os ganha sem merecer. Sem ter feito nada para isso, de repente lhe caem do céu. É, como dizem os ingleses, um ato de Deus. Sem se passarem as penas do amor, sem os compromissos do matrimônio, sem as dores da maternidade. E não se trata de um filho apenas suposto, como o filho adotado: o neto é realmente o sangue do seu sangue, filho de filho, mais filho que o filho mesmo...

Cinquenta anos, cinquenta e cinco... Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem as suas alegrias, as suas compensações — todos dizem isto embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto — mas acredita.

Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade. Não de amores nem de paixões: a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meus Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento a prestações, você não encontra de modo nenhum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres - não são mais aquelas crianças que você recorda.
E então um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis — aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que lhe é "devolvido". E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário causaria escândalo e decepção se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor recalcado que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.

Sim, tenho certeza que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis. Aliás, desconfio muito de que os netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos.

No entanto — no entanto! — nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, a rival: a mãe. Não importa que ela seja sua filha. Não deixa por isso de ser mãe do seu neto. Não importa que ela ensine o menino a lhe dar beijos e a lhe chamar de "vovozinha", e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais.

Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante dos triângulos conjugais.

A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe de comer, dá-lhe banho, veste-o. Embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.

Já a avô, não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto.
Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, "não ralha nunca". Deixa lambuzar de pirulitos. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso nos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia.

Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café — café! — mexer no armário da louça, fazer trem com as cadeiras da sala, destruir revistas, derramar a água do gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser e até fingir que está discando o telefone.

Riscar a parece com o lápis dizendo que foi sem querer — e ser acreditado! Fazer má-criação aos gritos e, em vez de apanhar, ir para os braços da avó e de lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna.

Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém esses prazeres não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós, com os seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto.

E quando você vai embalar o menino e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz: "Vó!", seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.

E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe o castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade e apoio... Além é claro das compensações....

Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menininho — involuntariamente! — bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beiço pronto para o choro; e depois, o sorriso malandro e aliviado porque "ninguém" se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, Vó?

Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.


Texto de Raquel de Queiroz
Descoberto no momento de minhas reflexões como avó

quinta-feira, abril 06, 2006

Tanajuras Fritas



Dia nublado, prometendo chuvinha constante e insistente. Dia típico que as crianças detestam pois significa ficar trancadas em casa, na frente da TV, meio sonolentas, sem grandes perspectivas.

O cinza se espalha um pouco sobre a gente, diminuindo a luz externa, predispondo à introspecção nostálgica.

Abro a janela aos poucos, olhando para essa nublada manhã de sábado. Um barulhinho esforçado de asas chama a atenção, e aos poucos um inseto consegue levantar um vôo atrapalhado, mambembe, para se esborrachar no chão da sala. Era uma tanajura.

Olho com mais cuidado para o bichinho que virou símbolo da mulher de cintura fina e quadril largo. Há quanto tempo não revia esse inseto?

Olhando para a formiga alada viajo para minha infância, quando saía em busca de encontrá-las, com um vidrinho na mão, morta de medo que usassem o ferrão.

Meia dúzia de tanajuras no vidrinho valia um capítulo extra das longas estórias contadas por nosso vizinho baiano, apreciador ferrenho de uma fritada de tanajuras, iguaria esperada ansiosamente por ele e disponível somente em um curto período do ano.

Pois nosso vizinho baiano era pedreiro de profissão, morava sozinho num barracão nos fundos da casa da vizinha. Talvez tivesse uns 40 anos e era muito religioso. Chegava em casa às cinco da tarde, tomava banho, pegava seu fumo de corda e se sentava numa cadeira no alpendre da nossa casa, à espera da garotada.

Éramos uma meia dúzia de crianças na faixa de seis anos de idade. Era o final dos anos 50, e a TV ainda era privilégio de poucos. As estórias eram uma atração e tanto, ainda mais os enredos complexos e fantásticos de nosso amigo.

Havia regras bastante rígidas para participar do atento grupo de ouvintes: ter tomado banho, estar com os deveres escolares prontos e ter expressa autorização materna para cada sessão. Naturalmente, isso proporcionava às mães a oportunidade de negociar a concessão como um prêmio por bom comportamento.

As estórias eram contadas em capítulos e duravam semanas com peripécias ainda hoje presentes na minha frágil memória. Sempre havia um personagem de bom coração que enfrentava todas as peripécias possíveis em um mundo imaginário de inimigos cruéis. Mas o bem sempre vencia e o final era sempre feliz.

O grand finale era sempre no sábado, com mais tempo disponível, já que uma vez que escurecesse devíamos ir para a cama.

Mas no tempo das tanajuras a rotina se modificava. O dia continuava claro até sete horas da noite. Na folga da escola a meninada saia atrás das grandes formigas aladas que á noite iriam para a frigideira de nosso contador de estórias. Como recompensa pelo nosso esforço em garantir a rara iguaria, ele se desdobrava em capítulos mais emocionantes, que misturavam perigo, aventura, romance e busca incessante pelos ideais dos heróis, que sempre eram pessoas de carater louvável.

Uma aura de magia, fantasia, aventuras e desventuras, perigos inimagináveis nos transportavam para um mundo onde tudo podia acontecer.

Recheadas de conteúdo educativo e repletas de mensagens que ressaltavam valores fundamentais para o ser humano, as tais estórias aos poucos modelavam nossa visão do mundo.

O registro emocional que tenho ainda hoje desses finais de tarde desperta meus melhores sentimentos.

Sem o dom natural daquele bom homem, me esforcei muito para criar estórias e contá-las para minhas filhas. Muitas vezes dormi antes das meninas, sem concluir o enredo imaginado no carro, ao voltar do trabalho. Também lia os contos de Grim e as deliciosas estórias publicadas quinzenalmente pela revista Alegria.

Há pouco tempo atrás fiquei muito feliz pois minha filha mais velha se lembrava de um dos personagens, a sapinha Cristina.

Fico pensando hoje no potencial que as estórias têm de passar conceitos, e como podem ser importantes para imprimir, de forma profunda, os valores nos quais acreditamos. Nessa fase, as crianças não têm tantos filtros e barreiras que irão adquirir com o tempo.

Mas infelizmente temos terceirizado para a TV uma parte da missão de moldar os valores de nossas crianças.

Olho de novo para a tanajura que está parada no piso da sala, na mesma posição, meio debilitada. Uma nesga de sol se esgueira pela copa da árvore e abre uma área iluminada na grama. Com cuidado pego o bichinho e consigo devolvê-lo ao jardim...


domingo, outubro 02, 2005

De chuvas e ciclos


Pela janela vejo as folhas das árvores cairem às dúzias sacudidas por um vento forte. Olho para um céu ameaçador carregado de nuvens muito escuras, anunciando tempestade daquelas.

Não tenho medo, ao contrário. Sempre gostei das tempestades. Sempre me pareceram uma demonstração de força da natureza, uma forma de deixar claro quem tem a primazia num mundo em que os humanos parecem ter controle de tudo. De vez em quando a natureza se encarrega de nos obrigar a reconstruir, talvez para nos lembrar de não destruir.

Quase seis da tarde. Os tons cinza chumbo me obrigam a acender algumas luzes. Será a primeira grande chuva da temporada. Ainda não testamos a qualidade do telhado nem o escoamento de aguas da chuva na nova casa. Espero não ter nenhuma surpresa.

No cerrado, as chuvas terminam em abril e recomeçam em setembro. Às vezes começam de mansinho, um chuvisco de nada. Ou esperam um dia muito abafado como o dia de hoje para fazer uma estréia triunfal, digna de uma ópera de Wagner. Em Goiania nunca temos inundações pra valer. Há muita área permeável e estamos longe de rios. Temos uns riachinhos de nada, que ás vezes até dão trabalho, mas não passa disso.

Então a chuva tem sempre um sentido positivo, de fecundidade, de oposição ao período da seca. Gosto de ver as gotas caindo. Quando criança ficava com o rosto colado na janela olhando para toda aquela água caindo com força. Á noite, gostava de ver os raios e os imaginava muito importantes para se fazerem anunciar com tanta pompa pelos trovões.

Pela manhã, o céu azul convidava a inspecionar as formigas, que no dia seguintes ás grandes chuvas de setembro, apareciam com asas e infernizavam a vida de minha mãe, que tinha que varrer as asas perdidas e espalhadas por toda a casa.

Ainda hoje não sei porque as formigas ganham asas nas noites de grande chuva...

Quando adolescente, um amigo querido me disse não gostar das tempestades. Ele as julgava um preço alto demais a pagar pelos dias de sol. Então dizia preferir todos os dias nublados. Na verdade, essa era uma forma de fugir de decepções, quase uma doutrina do tipo "melhor não ter para não perder".

Nunca consegui compartilhar desse sentimento. Os dias de sol trazem um encantamento às pessoas, às plantas e à vida. A chuva não é um preço a pagar. É um contraponto. Como ilusão e decepção. Esperança e lágrimas. Amor e abandono.

Como seria uma vida sem amores nem dissabores? Sem altos e baixos?

O cerrado é pleno de constrastes e de ciclos muito claros. Os mesmos campos que hoje estão ressequidos, semi mortos, soterrados sob um lençol de folhas secas, vão despertar após a primeira grande chuva e preencher a paisagem com um verde novinho, verde alvissareiro de folha recem nascida.

E em poucos dias tudo renasce sob o som estridente das cigarras, arautos infaliveis da primavera, trazendo à alma o sentimento de renovação, de recomeço, de novo ciclo...

quarta-feira, junho 22, 2005

Do adeus dos outros


Me impressionou profundamente o título do post do Milton: "o adeus dos outros" publicado há tempos atrás. O post aborda o tema "blogar or not" mas pende para um outro assunto de forte relevância, muitissimo humano e presente nas nossas vidas: persistir ou desistir.

Há muitos anos atrás li a frase: " A escolha traz em si uma perda" e pela primeira vez fui levada a pensar no "preço" de algumas escolhas que fazemos. Quando oscilamos entre desistir ou persistir não estamos fazendo mais que avaliar que preço estamos dispostos a pagar pela escolha de levar adiante um sonho, um afeto, um projeto, quando já não parece tão leve o fardo. Se estivesse leve não havia porque se questionar.

Raramente questionamos a leveza, o prazer, o afeto, a comunhão. Estas são fontes nas quais bebemos sempre com avidez. Questionamos o prazer dificil, o afeto raro, o sonho adiado, o projeto sacrificante, a aridez, a carência, a não sintonia.

E o que é "o adeus dos outros", senão uma prévia dolorida do nosso adeus, e uma forma terceirizada de reavaliar as escolhas que fazemos, e reiterá-las ou não. Ás vezes devemos perseverar, e de alguma forma encontrar forças para manter afetos, sonhos e projetos. Ás vezes devemos dizer adeus, ainda que olhando para trás...

E o meu mais novo aprendizado, fruto de algumas perdas de dificil reparação, me ensinou que existe ainda uma terceira alternativa: a de voltar atrás em algumas escolhas feitas, e, se a vontade for suficiente, ter coragem para retomar, reatar, reiniciar, reviver...

P.S. - Republicação para testar se o blog ainda está vivo


sábado, fevereiro 12, 2005

Cores do mundo interior

Como não tinha percebido antes?

Há uma cor para cada fase da vida, para a natureza e para as faces do mundo interior.

No inicio da vida adulta a descoberta do lilás: mistura equilibrada de rosa e azul claro, a combinação perfeita para definir o encontro do masculino e femino. Lilás nas cortinas e na cama. E a profunda busca de encontrar a alma irmã, o lado azul claro que me faltava...

Com vinte anos dominavam os tons das folhas dos plátanos em todas as suas variações definindo o estado de espírito da estação. O verde brilhante indicava os tempos com sol. Nas ruas de Porto Alegre, as folhas no chão indicavam que o semestre estava próximo de terminar, e com ele as temíveis provas da Escola de Engenharia.

Depois dos 30 anos a força do vermelho e do tons alaranjados orquestravam uma certa ode aos sentimentos contraditórios. Ás vezes nas roupas, o dominio das cores quentes predominavam nos conflitos interiores e na insana luta do cotidiano.

Perto dos 40 anos predominaram os tons amarelo queimado, como se aos poucos as chamas fossem cedendo lugar ao caramelo que passou a vestir as cadeiras e as camas da casa.

Numa fase já mais recente, pós 50, o branco e preto, simples, sóbrio, minimalista, passou a definir uma escolha de quem não quer se perder nos detalhes, pois não tem mais todo o tempo necessário para descobrir o mundo...

Como não tinha percebido antes?


sábado, fevereiro 05, 2005

O primeiro meio século

Zadig faz 50 anos


E o que posso fazer é tentar almofadar ainda mais a sua vida...





quinta-feira, dezembro 16, 2004

O ano se vai

O ano se vai...
Em marcha acelerada, as páginas da folhinha dançam ao sabor dos ventos que as levam, sabe Deus para onde... E em sua trajetória os dias tecem uma longa teia de sentimentos, elos, imagens, sensações.
Em sua lida o tempo pulveriza mágoas, constrói lembranças e cicatriza feridas abertas por dias que já se foram...
"De longe todas as serras são azuis" me dizia um querido amigo. De fato, vistas de longe as mazelas do cotidiano são fatos menores.
As lembranças que arquivamos em nosso baú de tesouros vêem de instantâneos capturados ao sabor de nossa disponibilidade emocional de perceber a beleza ou a importância de um momento.
É um fugaz raio de luz em uma face amada, uma palavra doce, a fumaça de um arroz recém preparado, a pergunta inesperada de uma criança, as perdas que enfrentamos, um cheiro que transpira infância, uma florzinha amarela banal ou um trecho de música que nos remete a um passado distante...
E ao olhar para esse ano que enfileira seus últimos recursos penso nas perdas e ganhos, nos momentos dificeis e nas alegrias que não faltaram.
Foi um ano diferente. Por um lado uma perda emocional de dificil superação. Pessoas muito queridas estão distantes. Por outro lado pessoas adoráveis e que fazem a diferença mostram que a vida se recicla como nas estações do ano.
No reveillon, quando o novo ano chegar, reservarei uma taça de champagne a esse ano tão diferente em minha vida. Talvez o ano em que tive mais alegrias em relação a todos os outros. E que também me trouxe dores muito profundas.
Vendo esse 2004 assim, quase terminando, penso em como a vida escorre célere seus minutos mas sabe nos deixar as necessárias lições.
E olhando para 2005 que está a caminho penso que os sonhos são mesmo o melhor combustível de uma vida.

quarta-feira, novembro 17, 2004

Feriado da República

Quase dezoito horas de segunda feira do feriadão.

O feriadão com direito a viagem a Pirenópolis e extravagâncias de sol, comida, vinhos, livros e excelente companhia, só teve de ponto baixo os garantidos e merecidos kilos a mais.

E agora essa janela temporal começa a se despedir em raios de sol amarelados, que entram sem convicção pela porta de vidro, junto com um bando de muriçocas.

O locutor da Nostalgie anuncia a musica " Fio Maravilha" cantado em francês pela Nicoletta e garante aquele tom de voz meio final de domingo. Para ele, transmitindo pela Internet uma excepcional programação da velha e boa música francesa, já são onze horas da noite de uma segunda feira normal de trabalho para os parisienses.

Mas para mim é como se fosse o final de domingo.

Penso nesse sentimento universal que nos acomete no final do domingo, no final do verão, no final da festa, no final das férias.

Acho que está ligado principalmente ao sentimento de "final". É quase um esvaziamento emocional antes de começar de novo. Sim, porque depois do feriado tudo recomeça, tão certo como o sol se porá daqui a pouco e reaparecerá amanhã cedinho.

E então me vem á mente uma frase do Luiz Fernando Veríssimo que adoro:
"Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo."
Gostaria de pedir a ele para acrescentar: " e para os finais de domingo, coragem..."

domingo, outubro 24, 2004

Em 30 anos

Minha geração assistiu a mudanças de métodos e tecnologia que parecem inacreditáveis vistos de hoje.

Numa conversa casual contei para minha filha que estuda Engenharia Eletrônica, que eu usei Régua de Cálculo e Manual do Engenheiro nos dois primeiros anos de Engenharia. Como assim régua de cálculo? Quando expliquei ela teve uma crise riso. Eu justifiquei dizendo que o homem foi a Lua apoiado no trabalho de engenheiros que também usavam régua de cálculo. Ela não conseguia acreditar.



Em 1972 eu trabalhava na Caixa Econômica Federal e meu serviço era ajudar a lançar o movimento diário na ficha dos correntistas.

O lançamento era feito numa máquina Audit da Olivetti, que possuía duas memórias mecânicas e somava as colunas do débito e do crédito separadamente, atualizando os saldos nas fichas dos correntistas com segurança e rapidez.

No final do dia somávamos os cheques, as retiradas e os depósitos em calculadoras também mecânicas para conferir o fechamento do movimento. No final do serviço meu braço doía pois essas máquinas eram todas movidas por pequenas manivelas laterais, mas era um trabalho muito conveniente pois era feito no final do dia e a noite o que me permitia ir para a faculdade na parte da manhã.



Nessa mesma época iniciamos a implantação de um sistema informatizado de processamento da conta corrente. Foram meses e meses para passar as informações das fichas amarelas para o novo sistema. Nessa mesma época eu estudava Fortran na faculdade e estava bastante familiarizada com os segredos dos cartões perfurados e dos relatórios de critica emitidos pelo computador mais moderno da época, o IBM370.

O novo sistema emitia uns papeizinhos que eram chamados de slips e que continham os lançamentos do dia anterior já processados. Como a Agência só recebia uma cópia do relatório, os caixas consultavam os saldos nos slips que ficavam num plástico organizado em ordem alfabética. O problema é que os slips vinham em ordem de conta corrente. Era preciso, todos os dias, colocá-los em ordem alfabética para serem consultados no dia seguinte. Durante o dia todos os lançamentos eram feitos á mão.

Em 1976, já morando em Porto Alegre fui trabalhar na compensação de cheques, onde os cheques em organizados pelo código das agências. Na sala havia grandes escaninhos de madeira com pequenos nichos e rotulados com o código da agência. Nosso trabalho era separar e somar os lotes de cheques em calculadoras elétricas da Burroughs, moderníssimas.



Qualquer problema mais urgente era comunicado às Agências usando outro equipamento também moderníssimo, o telex, uma espécie de telegrafo movido a fita perfurada e que era capaz de transmitir uma mensagem através da Embratel para outros aparelhos de telex em tempo real. O barulhinho do telex me ressoa nos ouvidos ainda hoje, tantas vezes o ouvi.

Parece muito arcaico visto de hoje? Pois isso aconteceu há menos de 30 anos.

Eu mesma as vezes fico surpresa de pensar que nossa geração usou o cartão perfurado e hoje convive com o Palm Top e a Internet.

Muito pouco tempo para uma revolução gigantesca.

terça-feira, outubro 19, 2004

Tempo bom

Quase novembro: e eis aí o final do ano e o Natal.

O ano está quase no fim... É como se os dias, as semanas, os meses tivessem menos horas do que deveriam ter. E na verdade, são as mesmas 24 de horas de sempre, sete dias por semana...

Por que então essa sensação de que o tempo está passando rápido demais? A noção de tempo é muito relativa, e para comprovar basta analisar a síndrome do segundo tempo no futebol. Se o seu time está perdendo, o tempo segue rápido demais, insuficiente para uma virada ou uma recuperação. Se o time está ganhando, sempre há o risco do adversário virar o jogo, que daí parece não acaba mais.

Só que na vida não dá para avaliar assim, de forma simples como quem olha o placar, se estamos ganhando ou perdendo. Porque a qualquer momento podem ocorrer reviravoltas que modificam completamente essa equação.

E, embora a analogia com uma partida de futebol tenha relativa adequação, a vida engendra teias complexas de sentimentos, valores, emoções, fraquezas, ligações que tornam quase impossível uma avaliação no meio do caminho. Podemos no máximo nos perguntar se estamos gostando do jogo ou se está na hora de fazer mudanças mais significativas.

E não há época mais propícia para nos fazermos essas perguntas do que no final do ano.

A proximidade do novo calendário acelera esse questionamento. É como se a perspectiva de um novo ano incluísse possibilidades de mudanças menos disponíveis em outras épocas.

Também há uma sensação difusa de término, de ciclo se encerrando. Os rituais de final de ano intensificam essa sensação de que tudo foi tão rápido que nem percebemos direito como o tempo passou.

Minha mãe me fala de uma época em não tinhamos agenda, palm top e celular, e o tempo era medido por folhinhas de calendário arrancadas uma a uma. E o sentimento em relação ao tempo era exatamente o contrário, de tempo arrastado, medido pelas estações e pela colheita.

E em sua enorme sabedoria me diz: Se está passando rápido é por que está bom. Tempo ruim demora muito a passar.


quarta-feira, setembro 08, 2004

Mundo Real

Como será que a memória organiza as nossas lembranças?
Ordenadas, em catálogos indexados por importância?

Móveis, trocando de posição conforme o acontecimento do dia?
Misturadas, uma permeando a outra, ligadas por algum elo que não identificamos?

Soltas, livres para se apresentarem quando quiseram?
Obedientes, aguardando um chamado, um cheiro, uma voz que as tire de uma gaveta sombria e lhes devolva a cor e o brilho?

Que mistérios estão submersos em nós, esmaecidos sob um cotidiano de rotinas e tarefas, no qual mal ousamos questionar nosso estado de espírito? Como uma foto que, por estar no aparador da sala e sob nosso olhar cotidiano, não enxergamos mais.

E se a coragem fosse suficiente para rever as fotos, reler as cartas, revisitar sentimentos, rever as imagens mentais que guardamos com zelo inconsciente?

Me vem à mente uma estreita estrada, pó vermelho fino, mato crestado pela seca prolongada de agosto, ostentando uma camada empoeirada que igualava em tons de terra o pouco de verde que sobrevivera.

Quase todos os dias pelas duas da tarde eu percorria uns quatro kilometros nessa estradinha, até alcançar, uma frondosa mangueira, imune à seca e à poeira que um eventual e distante carro levantava na sua rota.

Repassando aquele ambiente na memória percebo a distância física e psicológica entre aquela menina de 12 anos e a mulher de 51 que escreve sentada agora, com o conforto de um suco gelado e uma temperatura agradável.

A árvore era um refúgio seguro e secreto, e ali eu podia ler sem medo os livros que tanto amava e que me ajudavam a criar um mundo imaginário tão forte que penetrava o mundo real e o transformava de verdade.

Sob aquela mangueira li inúmeros volumes de romances compactos da coleção de capa dura do Readers Digest e toda a Comédia Humana de Balzac, emprestados, um a um pelo meu professor de literatura.

Mais tarde, aos 15 anos, a criação desse mundo imaginário passou a ser um sistema de defesa complexo e relevante.

Já morava em Goiânia, estudava em um Colégio Católico para moças, onde passava o dia, e trabalhava à noite como garçonete em um bar de periferia de propriedade dos meus tios.

Pela manhã, meu mundo era de meninas de classe média alta se preparando para se tornarem boas esposas e mães, com educação primorosa, incluindo estudos de francês, latim e grego. No regime de semi-internato ficava no Colégio até ás cinco da tarde, depois dos estudos de filosofia e sessões de leitura, etiqueta, religião e história da arte.

Éramos então três bolsistas, as três meninas pobres que, á custa de notas exemplares, garantiam o direito de frequentar um mundo ao qual não pertencíamos.

No final da tarde ia direto da escola para o bar, o tempo suficiente só para trocar o uniforme. No final de semana o turno começava de manhã e ia até tarde da noite.

Convivia, de segunda a segunda, com motoristas de caminhão, pedreiros, carregadores, serventes, que ao final de um duro dia de trabalho, iam ainda sujos para o bar conversar, jogar bilhar ou beber.

Era gente simples e pobre, alguns agradáveis, outros nem tanto. No geral tinham em comum um certo traço de rudeza, que o trabalho duro e a vida sem recompensas vai desenhando na personalidade, na voz e no rosto. Depois de algumas horas o álcool cumpria sua missão, e a rudeza se transformava em grosseria, e daí para uma eventual briga era um passo.

A cada dia que passava era cada vez mais difícil sair do mundo sonhado do colégio e ir para a realidade do bar. Aos poucos, para sobreviver, fui aprendendo a não voltar mais para a realidade, ainda que tivesse que ir para o bar trabalhar.

Assim, os frequentadores passaram a receber nomes dos romances que lia, e a se portar de acordo com os personagens. Os romances russos forneceram muitos nomes e personalidades para aquelas pessoas.

Com o tempo já conseguia enxergá-los com outra roupa, com outra face, com outra voz. Passei a criar um dicionário de tradução para as frases que diziam e que tinha relação direta com o que eu lia durante a tarde no colégio.

Assim, para um personagem britânico, "põe aí uma dose de pinga!" significava "pode me servir um pouco de brandy?".

Depois o próprio ambiente passou a ser diferente, e a conter cada vez mais elementos imaginários que tornaram possíveis os anos que passei ali. Era quase um ensaio de teatro, onde só eu conhecia o texto e ninguém mais sonhava que fazia parte da peça.


Quando alguém estranhava, meu tio comentava: "ela é meio esquisita mesmo".

O elo que me mantinha na normalidade era a convicção profunda e absoluta que meu mundo imaginário é que era o real, e que atingi-lo era só uma questão de tempo e de vontade firme.

E olhando de agora, aquelas noites são distantes fotos amareladas de uma fase que definiu boa parte do que penso e do que sou hoje.



quarta-feira, agosto 04, 2004

Construir

Meses de discussão sobre o projeto e eis que algumas pranchas contêm o que será um dia a nossa casa.

Providências de aprovação na Prefeitura, adequação às regras do condomínio, perda de tempo, chateação e muito dinheiro para taxas e impostos de todo tipo imaginável. Orçamento, compra de material, movimento de terra, cansaço, manhãs de domingo e noites de sábado em análise de contas, projeções de custo e planilhas.

Um dia, cansada de comparar preços de aço de várias bitolas, pensei que tem todo fundamento o conceito de que construir uma casa é uma cansativa e desgastante odisséia, me ocorreu analisar o sentido exato da palavra construir.

Pego o dicionário e leio: Construir - Edificar, dar estrutura a, formar, conceber.

Fico pensando nos diversas sentidos dessas palavras e nas suas variações, sempre de conotação positiva: edificante, construtivo, estrutural.

E de repente, fica clara a sabotagem que estou fazendo comigo mesma ao encarar essa fase de construção como uma etapa de provação, obrigatória para a obtenção do resultado desejado que é a casa nova.

Ao fazer isso, deixo escorrer naquelas valas a chance de saborear essa experiência, de ver esse momento como ele realmente é: um processo construtivo.

De um modo geral, não é fácil reconhecer e apreciar as diversas oportunidades de alegria que temos, e que perdemos exatamente por sobrevalorizar os pequenos entraves e contratempos.

Outro dia, li numa crônica que os momentos realmente importantes estão ligados a "coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: ´eu gosto muito de você!`; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu, um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: ´Veja como estão agradecidas!´Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas."

E fiquei desfiando para mim mesma uma coleção de imagens de momentos assim simples, que preenchem nossa vida de forma definitiva, e nós só vamos nos dar conta disso muito mais tarde...Levar as meninas para a escola, preparar rabanadas no final do domingo, contar estórias sem fim, que continuavam meses a fio, ver o mar a primeira vez, o cheiro dos pêssegos da Praça da Alfândega de Porto Alegre, um pacote que chega pelo correio...

Rápidas, nem sempre fáceis, as experiências só têm a sua real importância reconhecida tempos depois de vividos. Como os paralelepípedos de Proust, chave para uma viagem "... que é uma impressão do passado... e que só podemos conhecer quando preservada, pois no momento em que a vivemos, ela não se apresenta à nossa memória, mas ao centro das sensações que a suprimem".

Dito de maneira menos elaborada, o que vivemos aqui e agora consome atenção demais enquanto estamos vivendo, para que possamos avaliar o seu impacto, e requer tempo - esse enigmático componente - para fazer sentido no novelo de uma vida.

Olho novamente para os buracos cavados na terra e que começam a se encher de ferro e concreto, e penso que um dia, ao consultar meu baú de tesouros, talvez encontre imagens dessa manhã de segunda feira, de céu azul, em que eu olhava para tudo isso preocupada com os custos crescentes do aço, e deixava passar um pedaço importante das emoções e forças potenciais do concreto que se ergue para edificar e construir o casulo de uma nova etapa da nossa vida.




sábado, junho 19, 2004

Os que escrevem e os que lêem

Outro dia li um post do Rafael Reinehr intitulado "Tem mais gente escrevendo que lendo".

De fato, tem ocorrido uma fantástica proliferação dos blogs, mesmo se excluirmos os diários adolescentes e pensarmos somente naqueles com temas que valem a pena ser lidos.

A leitura do post me levou a refletir um pouco sobre o dilema escritores x leitores, sem nenhuma análise quanto à qualidade do conteudo.

Assim, me parece que há realmente uma relação muito direta entre a quantidade de pessoas que escrevem e as que lêem, e esse não é um fato recente.

Mas a questão tomou outra dimensão, e só veio á tona, depois que a barreira de publicar caiu por terra, derrubada pela facilidade e simplicidade de publicar via blog.

A diferença é que as pessoas que escrevem porque é vital para elas, sempre o fizeram e continuam a fazê-lo, seja nos cadernos á la Proust, seja nos blogs de hoje.

Em paralelo, há um universo de pessoas, em cuja categoria me incluo, que gosta mais de ler e, ás vezes arrisca algumas linhas, sem qualquer pretensão que não um diálogo com meia dúzia de amigos.

Assim, uma grande maioria de blogueiros publicam esporadicamente sua visão de mundo e usam os blogs como mecanismo de relacionamento ou até de terapia. Até mesmo por essa razão são leitores de primeira linha.

Por outro lado, aqueles que escrevem porque está no DNA, encontram nessa multidão de publicadores eventuais um público assíduo, pronto a compartilhar e a quebrar o antigo vale existente entre o escritor e seu público.

Além disso, o escritor e o leitor agora não estão sujeitos á ditadura do mercado das editoras como ocorre hoje na música. Será fantástico quando esse fenômeno se repetir na música, pois não seremos obrigados a ouvir somente o que o mercado fonográfico nos impõe, com critérios que permitiram que o pagode afogasse a música brasileira de qualidade.

Com os blogs, as pessoas de talento que não tinham nenhuma forma de fazer chegar aos leitores a sua produção, têm agora o meio para fazê-lo. Do lado leitor, o volume dificulta um pouco achar as pérolas que estão disponíveis.

É um fantástico equilíbrio, com um potencial multiplicador ainda desconhecido pois os blogs ainda são de acesso muito restrito, pois muitos leitores e escritores não estão ainda nesse círculo.

São comuns os blogs com mais de mil visitantes por mês entre os que costumo visitar. É um volume de leitores nada desprezível. Quantos livros de estreantes vendem essa proporção?

É por isso que acredito que enquanto proliferam os que escrevem, numa proporção bem maior se multiplicam os que lêem.


A Leitora - Auguste Renoir
Musée d'Orsay, Paris

quinta-feira, junho 17, 2004

Amigos de verdade

Eles entraram na nossa vida aos poucos, muito lentamente.

Sempre os achamos muito simpáticos, mas não somos de aproximação fácil, assim, por muito tempo, nos mantivemos à pouca distância mas sem chegar muito perto.

Na quinta série, Cecília conheceu a Juliana, que muito rápido se tornou a melhor amiga. Os constantes contatos motivados pela amizade das nossas filhas, por anos a fio, criou um convívio típico de pais, que só conversam sobre destino e horários dos filhos.

Quando as meninas foram para o segundo grau, conversamos mais proximamente para compartilhar as visões sobre a melhor escola para elas. Daí para frente os contatos foram se intensificando.

No Reveillon de 2002 fomos juntos em Caldas Novas e lá ficamos por uma semana, curtindo as delícias das águas quentes e uma honesta champagne á beira da piscina. E, fato inesquecível, consumimos a modesta quantia de 200 unidades de bolinhos de arroz com queijo.

Uma semana foi mais que suficiente para descortinarmos melhor a personalidade dos nossos amigos e nos tornarmos bem proximos.

Assim, descobrimos na Lueli um bom gosto nato, associado a um equilibrio e bom humor infinitos. Excepcional na cozinha, faz uma torta de limão que nenhum mortal pode esquecer.

Elegante e refinada, consegue se mostrar de uma simplicidade inacreditável, além de ter um dom natural para decoração e para as plantas, em particular as orquídeas. Aprendo sempre com ela e com sua forma leve de ir fazendo acontecer.

No Chico descobrimos uma enorme vontade de aprender, de ler, de conhecer e de viver. Cheio de energia, gosta de ler, de conversar, de conviver, de viajar, de vinho, de cinema e de boa música.

Conservador em qualquer assunto ligado á família, consegue adotar rapidamente as novidades da tecnologia e ser aberto para descobrir outras formas de pensar.

Desde aquele fantástico reveillon não temos poupado oportunidades de estarmos juntos, em encontros onde um bom vinho nunca está ausente. São momentos muito agradáveis, que nos deixa com uma sensação de tempo bem aproveitado, de prazer mesmo.

Ao ler a carta que ele publicou como despedida do seu blog, fiquei emocionada com a sensibilidade e grandeza de espírito do Chico.

Assim pensei que eu, blogueira bissexta que publica muito esporadicamente, talvez pudesse interceder para que ele mantivesse o Tempo Destino, pois vai chegar uma hora que vai ser bom compartilhar um texto, uma imagem, uma emoção.

E também dizer que eles fazem a diferença, pois sem nos darmos conta foram aos poucos participando de nossa vida e a tornando melhor.

E que é muito bom ter amigos como eles...

domingo, junho 13, 2004

Tardes de Outono

Há dias que são absolutamente perfeitos. Tudo aconteceu da melhor forma possivel, com todos os ingredientes possíveis de alegria.

Porque ainda assim a tristeza nos visita?

Assim, sem mais nem porque, sem pedir licença, sem marcar visita, sem bater á porta.

Simplesmente chega e se instala. Não veio para uma longa temporada pois não veio com mala.

Pelo jeito é uma visita passageira, dessas tão comuns nos domingos á noite, que há tempos não aparecia.

Não veio trazida por um problema do passado, por uma perda ou por uma lembrança.

Veio misturada no por de sol em tons alaranjados, tomou corpo no chá de hortelã e se instalou com a música Sweet Memories de Ray Charles.

Não é dessas tristezas que pesam na alma, que subjugam o corpo, que vergam os ombros.

É um sentimento que se instala aos poucos, sorrateiro e insidioso, uma espécie de visgo que se cola á pele como o sereno frio da madrugada. De início nem parece real mas com o tempo dá a impressão de chegar aos ossos.

Instalado como está, esse sentimento tristeza é quase uma assinatura de contraponto ao latido alegre do nosso Collie Balzac, incansável na sua eterna e inútil missão de perseguir helicópteros e boeings, que, imagino, são para ele riscos terríveis á segurança da casa.

Tentei resistir um pouco à essa velha conhecida. Tenho muitos truques para mantê-la á uma distância segura.

Mas mudei de idéia.

Talvez devesse mesmo fazer esse exercício de outono, de perder as folhas a ponto de chegar na nudez dos galhos.

De olhar com mais pausar para tudo o que me rodeia com lentes mais amenas, não de quem organiza mas de quem percebe.

De olhar devagar e demoradamente ao contrário da visão en passant de sempre.

De mergulhar nos sentimentos sem precisar abrir nenhum armário de lembranças.

Quase um "Let it be".

Por que não?




quinta-feira, maio 27, 2004

Das mulheres

Os mais críticos que me perdoem, mas o texto de Affonso Romano merece uma releitura...

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A Mulher Madura

O rosto da mulher madura entrou na moldura de meus olhos.

De repente, a surpreendo num banco olhando de soslaio, aguardando sua vez no balcão. Outras vezes ela passa por mim na rua entre os camelôs. Vezes outras a entrevejo no espelho de uma joalheria. A mulher madura, com seu rosto denso esculpido como o de uma atriz grega, tem qualquer coisa de Melina Mercouri ou de Anouke Aimé.

Há uma serenidade nos seus gestos, longe dos desperdícios da adolescência, quando se esbanjam pernas, braços e bocas ruidosamente. A adolescente não sabe ainda os limites de seu corpo e vai florescendo estabanada. É como um nadador principiante, faz muito barulho, joga muita água para os lados. Enfim, desborda.

A mulher madura nada no tempo e flui com a serenidade de um peixe. O silêncio em torno de seus gestos tem algo do repouso da garça sobre o lago. Seu olhar sobre os objetos não é de gula ou de concupiscência. Seus olhos não violam as coisas, mas as envolvem ternamente. Sabem a distância entre seu corpo e o mundo.

A mulher madura é assim: tem algo de orquídea que brota exclusiva de um tronco, inteira. Não é um canteiro de margaridas jovens tagarelando nas manhãs.

A adolescente, com o brilho de seus cabelos, com essa irradiação que vem dos dentes e dos olhos, nos extasia. Mas a mulher madura tem um som de adágio em suas formas. E até no gozo ela soa com a profundidade de um violoncelo e a sutileza de um oboé sobre a campina do leito.

A boca da mulher madura tem uma indizível sabedoria. Ela chorou na madrugada e abriu-se em opaco espanto. Ela conheceu a traição e ela mesma saiu sozinha para se deixar invadir pela dimensão de outros corpos. Por isto as suas mãos são líricas no drama e repõem no seu corpo um aprendizado da macia paina de setembro e abril.

O corpo da mulher madura é um corpo que já tem história. Inscrições se fizeram em sua superfície. Seu corpo não é como na adolescência uma pura e agreste possibilidade. Ela conhece seus mecanismos, apalpa suas mensagens, decodifica as ameaças numa intimidade respeitosa.

Sei que falo de uma certa mulher madura localizada numa classe social, e os mais politizados têm que ter condescendência e me entender. A maturidade também vem à mulher pobre, mas vem com tal violência que o verde se perverte e sobre os casebres e corpos tudo se reveste de uma marrom tristeza.

Na verdade, talvez a mulher madura não se saiba assim inteira ante seu olho interior. Talvez a sua aura se inscreva melhor no olho exterior, que a maturidade é também algo que o outro nos confere, complementarmente. Maturidade é essa coisa dupla: um jogo de espelhos revelador.

Cada idade tem seu esplendor. É um equívoco pensá-lo apenas como um relâmpago de juventude, um brilho de raquetes e pernas sobre as praias do tempo. Cada idade tem seu brilho e é preciso que cada um descubra o fulgor do próprio corpo.

A mulher madura está pronta para algo definitivo.

Merece, por exemplo, sentar-se naquela praça de Siena à tarde acompanhando com o complacente olhar o vôo das andorinhas e as crianças a brincar. A mulher madura tem esse ar de que, enfim, está pronta para ir à Grécia. Descolou-se da superfície das coisas. Merece profundidades. Por isto, pode-se dizer que a mulher madura não ostenta jóias. As jóias brotaram de seu tronco, incorporaram-se naturalmente ao seu rosto, como se fossem prendas do tempo.

A mulher madura é um ser luminoso é repousante às quatro horas da tarde, quando as sereias se banham e saem discretamente perfumadas com seus filhos pelos parques do dia. Pena que seu marido não note, perdido que está nos escritórios e mesquinhas ações nos múltiplos mercados dos gestos. Ele não sabe, mas deveria voltar para casa tão maduro quanto Yves Montand e Paul Newman, quando nos seus filmes.

Sobretudo, o primeiro namorado ou o primeiro marido não sabem o que perderam em não esperá-la madurar. Ali está uma mulher madura, mais que nunca pronta para quem a souber amar.

O texto extraído do livro "A Mulher Madura" - Affonso Romano de Sant'Anna, Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1986.