| Como não tinha percebido antes? Há uma cor para cada fase da vida, para a natureza e para as faces do mundo interior. No inicio da vida adulta a descoberta do lilás: mistura equilibrada de rosa e azul claro, a combinação perfeita para definir o encontro do masculino e femino. Lilás nas cortinas e na cama. E a profunda busca de encontrar a alma irmã, o lado azul claro que me faltava... Com vinte anos dominavam os tons das folhas dos plátanos em todas as suas variações definindo o estado de espírito da estação. O verde brilhante indicava os tempos com sol. Nas ruas de Porto Alegre, as folhas no chão indicavam que o semestre estava próximo de terminar, e com ele as temíveis provas da Escola de Engenharia. Depois dos 30 anos a força do vermelho e do tons alaranjados orquestravam uma certa ode aos sentimentos contraditórios. Ás vezes nas roupas, o dominio das cores quentes predominavam nos conflitos interiores e na insana luta do cotidiano. Perto dos 40 anos predominaram os tons amarelo queimado, como se aos poucos as chamas fossem cedendo lugar ao caramelo que passou a vestir as cadeiras e as camas da casa. Numa fase já mais recente, pós 50, o branco e preto, simples, sóbrio, minimalista, passou a definir uma escolha de quem não quer se perder nos detalhes, pois não tem mais todo o tempo necessário para descobrir o mundo... Como não tinha percebido antes? |
sábado, fevereiro 12, 2005
Cores do mundo interior
sábado, fevereiro 05, 2005
quinta-feira, dezembro 16, 2004
O ano se vai
Em marcha acelerada, as páginas da folhinha dançam ao sabor dos ventos que as levam, sabe Deus para onde... E em sua trajetória os dias tecem uma longa teia de sentimentos, elos, imagens, sensações.
Em sua lida o tempo pulveriza mágoas, constrói lembranças e cicatriza feridas abertas por dias que já se foram...
"De longe todas as serras são azuis" me dizia um querido amigo. De fato, vistas de longe as mazelas do cotidiano são fatos menores.
As lembranças que arquivamos em nosso baú de tesouros vêem de instantâneos capturados ao sabor de nossa disponibilidade emocional de perceber a beleza ou a importância de um momento.
É um fugaz raio de luz em uma face amada, uma palavra doce, a fumaça de um arroz recém preparado, a pergunta inesperada de uma criança, as perdas que enfrentamos, um cheiro que transpira infância, uma florzinha amarela banal ou um trecho de música que nos remete a um passado distante...
E ao olhar para esse ano que enfileira seus últimos recursos penso nas perdas e ganhos, nos momentos dificeis e nas alegrias que não faltaram.
Foi um ano diferente. Por um lado uma perda emocional de dificil superação. Pessoas muito queridas estão distantes. Por outro lado pessoas adoráveis e que fazem a diferença mostram que a vida se recicla como nas estações do ano.
No reveillon, quando o novo ano chegar, reservarei uma taça de champagne a esse ano tão diferente em minha vida. Talvez o ano em que tive mais alegrias em relação a todos os outros. E que também me trouxe dores muito profundas.
Vendo esse 2004 assim, quase terminando, penso em como a vida escorre célere seus minutos mas sabe nos deixar as necessárias lições.
E olhando para 2005 que está a caminho penso que os sonhos são mesmo o melhor combustível de uma vida.
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quarta-feira, novembro 17, 2004
Feriado da República
| Quase dezoito horas de segunda feira do feriadão. O feriadão com direito a viagem a Pirenópolis e extravagâncias de sol, comida, vinhos, livros e excelente companhia, só teve de ponto baixo os garantidos e merecidos kilos a mais. E agora essa janela temporal começa a se despedir em raios de sol amarelados, que entram sem convicção pela porta de vidro, junto com um bando de muriçocas. O locutor da Nostalgie anuncia a musica " Fio Maravilha" cantado em francês pela Nicoletta e garante aquele tom de voz meio final de domingo. Para ele, transmitindo pela Internet uma excepcional programação da velha e boa música francesa, já são onze horas da noite de uma segunda feira normal de trabalho para os parisienses. Mas para mim é como se fosse o final de domingo. Penso nesse sentimento universal que nos acomete no final do domingo, no final do verão, no final da festa, no final das férias. Acho que está ligado principalmente ao sentimento de "final". É quase um esvaziamento emocional antes de começar de novo. Sim, porque depois do feriado tudo recomeça, tão certo como o sol se porá daqui a pouco e reaparecerá amanhã cedinho. E então me vem á mente uma frase do Luiz Fernando Veríssimo que adoro: "Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo." Gostaria de pedir a ele para acrescentar: " e para os finais de domingo, coragem..." |
domingo, outubro 24, 2004
Em 30 anos
| Minha geração assistiu a mudanças de métodos e tecnologia que parecem inacreditáveis vistos de hoje.
Numa conversa casual contei para minha filha que estuda Engenharia Eletrônica, que eu usei Régua de Cálculo e Manual do Engenheiro nos dois primeiros anos de Engenharia. Como assim régua de cálculo? Quando expliquei ela teve uma crise riso. Eu justifiquei dizendo que o homem foi a Lua apoiado no trabalho de engenheiros que também usavam régua de cálculo. Ela não conseguia acreditar. Em 1972 eu trabalhava na Caixa Econômica Federal e meu serviço era ajudar a lançar o movimento diário na ficha dos correntistas. O lançamento era feito numa máquina Audit da Olivetti, que possuía duas memórias mecânicas e somava as colunas do débito e do crédito separadamente, atualizando os saldos nas fichas dos correntistas com segurança e rapidez. No final do dia somávamos os cheques, as retiradas e os depósitos em calculadoras também mecânicas para conferir o fechamento do movimento. No final do serviço meu braço doía pois essas máquinas eram todas movidas por pequenas manivelas laterais, mas era um trabalho muito conveniente pois era feito no final do dia e a noite o que me permitia ir para a faculdade na parte da manhã. Nessa mesma época iniciamos a implantação de um sistema informatizado de processamento da conta corrente. Foram meses e meses para passar as informações das fichas amarelas para o novo sistema. Nessa mesma época eu estudava Fortran na faculdade e estava bastante familiarizada com os segredos dos cartões perfurados e dos relatórios de critica emitidos pelo computador mais moderno da época, o IBM370. O novo sistema emitia uns papeizinhos que eram chamados de slips e que continham os lançamentos do dia anterior já processados. Como a Agência só recebia uma cópia do relatório, os caixas consultavam os saldos nos slips que ficavam num plástico organizado em ordem alfabética. O problema é que os slips vinham em ordem de conta corrente. Era preciso, todos os dias, colocá-los em ordem alfabética para serem consultados no dia seguinte. Durante o dia todos os lançamentos eram feitos á mão. Em 1976, já morando em Porto Alegre fui trabalhar na compensação de cheques, onde os cheques em organizados pelo código das agências. Na sala havia grandes escaninhos de madeira com pequenos nichos e rotulados com o código da agência. Nosso trabalho era separar e somar os lotes de cheques em calculadoras elétricas da Burroughs, moderníssimas. Qualquer problema mais urgente era comunicado às Agências usando outro equipamento também moderníssimo, o telex, uma espécie de telegrafo movido a fita perfurada e que era capaz de transmitir uma mensagem através da Embratel para outros aparelhos de telex em tempo real. O barulhinho do telex me ressoa nos ouvidos ainda hoje, tantas vezes o ouvi. Parece muito arcaico visto de hoje? Pois isso aconteceu há menos de 30 anos. Eu mesma as vezes fico surpresa de pensar que nossa geração usou o cartão perfurado e hoje convive com o Palm Top e a Internet. Muito pouco tempo para uma revolução gigantesca. |
terça-feira, outubro 19, 2004
Tempo bom
Quase novembro: e eis aí o final do ano e o Natal. O ano está quase no fim... É como se os dias, as semanas, os meses tivessem menos horas do que deveriam ter. E na verdade, são as mesmas 24 de horas de sempre, sete dias por semana... Por que então essa sensação de que o tempo está passando rápido demais? A noção de tempo é muito relativa, e para comprovar basta analisar a síndrome do segundo tempo no futebol. Se o seu time está perdendo, o tempo segue rápido demais, insuficiente para uma virada ou uma recuperação. Se o time está ganhando, sempre há o risco do adversário virar o jogo, que daí parece não acaba mais. Só que na vida não dá para avaliar assim, de forma simples como quem olha o placar, se estamos ganhando ou perdendo. Porque a qualquer momento podem ocorrer reviravoltas que modificam completamente essa equação. E, embora a analogia com uma partida de futebol tenha relativa adequação, a vida engendra teias complexas de sentimentos, valores, emoções, fraquezas, ligações que tornam quase impossível uma avaliação no meio do caminho. Podemos no máximo nos perguntar se estamos gostando do jogo ou se está na hora de fazer mudanças mais significativas. E não há época mais propícia para nos fazermos essas perguntas do que no final do ano. A proximidade do novo calendário acelera esse questionamento. É como se a perspectiva de um novo ano incluísse possibilidades de mudanças menos disponíveis em outras épocas. Também há uma sensação difusa de término, de ciclo se encerrando. Os rituais de final de ano intensificam essa sensação de que tudo foi tão rápido que nem percebemos direito como o tempo passou. Minha mãe me fala de uma época em não tinhamos agenda, palm top e celular, e o tempo era medido por folhinhas de calendário arrancadas uma a uma. E o sentimento em relação ao tempo era exatamente o contrário, de tempo arrastado, medido pelas estações e pela colheita. E em sua enorme sabedoria me diz: Se está passando rápido é por que está bom. Tempo ruim demora muito a passar. |
quarta-feira, setembro 08, 2004
Mundo Real
Ordenadas, em catálogos indexados por importância?
Móveis, trocando de posição conforme o acontecimento do dia?
Misturadas, uma permeando a outra, ligadas por algum elo que não identificamos?
Soltas, livres para se apresentarem quando quiseram?
Obedientes, aguardando um chamado, um cheiro, uma voz que as tire de uma gaveta sombria e lhes devolva a cor e o brilho?
Que mistérios estão submersos em nós, esmaecidos sob um cotidiano de rotinas e tarefas, no qual mal ousamos questionar nosso estado de espírito? Como uma foto que, por estar no aparador da sala e sob nosso olhar cotidiano, não enxergamos mais.
E se a coragem fosse suficiente para rever as fotos, reler as cartas, revisitar sentimentos, rever as imagens mentais que guardamos com zelo inconsciente?
Me vem à mente uma estreita estrada, pó vermelho fino, mato crestado pela seca prolongada de agosto, ostentando uma camada empoeirada que igualava em tons de terra o pouco de verde que sobrevivera.
Quase todos os dias pelas duas da tarde eu percorria uns quatro kilometros nessa estradinha, até alcançar, uma frondosa mangueira, imune à seca e à poeira que um eventual e distante carro levantava na sua rota.
Repassando aquele ambiente na memória percebo a distância física e psicológica entre aquela menina de 12 anos e a mulher de 51 que escreve sentada agora, com o conforto de um suco gelado e uma temperatura agradável.
A árvore era um refúgio seguro e secreto, e ali eu podia ler sem medo os livros que tanto amava e que me ajudavam a criar um mundo imaginário tão forte que penetrava o mundo real e o transformava de verdade.
Sob aquela mangueira li inúmeros volumes de romances compactos da coleção de capa dura do Readers Digest e toda a Comédia Humana de Balzac, emprestados, um a um pelo meu professor de literatura.
Mais tarde, aos 15 anos, a criação desse mundo imaginário passou a ser um sistema de defesa complexo e relevante.
Já morava em Goiânia, estudava em um Colégio Católico para moças, onde passava o dia, e trabalhava à noite como garçonete em um bar de periferia de propriedade dos meus tios.
Pela manhã, meu mundo era de meninas de classe média alta se preparando para se tornarem boas esposas e mães, com educação primorosa, incluindo estudos de francês, latim e grego. No regime de semi-internato ficava no Colégio até ás cinco da tarde, depois dos estudos de filosofia e sessões de leitura, etiqueta, religião e história da arte.
Éramos então três bolsistas, as três meninas pobres que, á custa de notas exemplares, garantiam o direito de frequentar um mundo ao qual não pertencíamos.
No final da tarde ia direto da escola para o bar, o tempo suficiente só para trocar o uniforme. No final de semana o turno começava de manhã e ia até tarde da noite.
Convivia, de segunda a segunda, com motoristas de caminhão, pedreiros, carregadores, serventes, que ao final de um duro dia de trabalho, iam ainda sujos para o bar conversar, jogar bilhar ou beber.
Era gente simples e pobre, alguns agradáveis, outros nem tanto. No geral tinham em comum um certo traço de rudeza, que o trabalho duro e a vida sem recompensas vai desenhando na personalidade, na voz e no rosto. Depois de algumas horas o álcool cumpria sua missão, e a rudeza se transformava em grosseria, e daí para uma eventual briga era um passo.
A cada dia que passava era cada vez mais difícil sair do mundo sonhado do colégio e ir para a realidade do bar. Aos poucos, para sobreviver, fui aprendendo a não voltar mais para a realidade, ainda que tivesse que ir para o bar trabalhar.
Assim, os frequentadores passaram a receber nomes dos romances que lia, e a se portar de acordo com os personagens. Os romances russos forneceram muitos nomes e personalidades para aquelas pessoas.
Com o tempo já conseguia enxergá-los com outra roupa, com outra face, com outra voz. Passei a criar um dicionário de tradução para as frases que diziam e que tinha relação direta com o que eu lia durante a tarde no colégio.
Assim, para um personagem britânico, "põe aí uma dose de pinga!" significava "pode me servir um pouco de brandy?".
Depois o próprio ambiente passou a ser diferente, e a conter cada vez mais elementos imaginários que tornaram possíveis os anos que passei ali. Era quase um ensaio de teatro, onde só eu conhecia o texto e ninguém mais sonhava que fazia parte da peça.
Quando alguém estranhava, meu tio comentava: "ela é meio esquisita mesmo".
O elo que me mantinha na normalidade era a convicção profunda e absoluta que meu mundo imaginário é que era o real, e que atingi-lo era só uma questão de tempo e de vontade firme.
E olhando de agora, aquelas noites são distantes fotos amareladas de uma fase que definiu boa parte do que penso e do que sou hoje.
quarta-feira, agosto 04, 2004
Construir
Providências de aprovação na Prefeitura, adequação às regras do condomínio, perda de tempo, chateação e muito dinheiro para taxas e impostos de todo tipo imaginável. Orçamento, compra de material, movimento de terra, cansaço, manhãs de domingo e noites de sábado em análise de contas, projeções de custo e planilhas.
Um dia, cansada de comparar preços de aço de várias bitolas, pensei que tem todo fundamento o conceito de que construir uma casa é uma cansativa e desgastante odisséia, me ocorreu analisar o sentido exato da palavra construir.
Pego o dicionário e leio: Construir - Edificar, dar estrutura a, formar, conceber.
Fico pensando nos diversas sentidos dessas palavras e nas suas variações, sempre de conotação positiva: edificante, construtivo, estrutural.
E de repente, fica clara a sabotagem que estou fazendo comigo mesma ao encarar essa fase de construção como uma etapa de provação, obrigatória para a obtenção do resultado desejado que é a casa nova.
Ao fazer isso, deixo escorrer naquelas valas a chance de saborear essa experiência, de ver esse momento como ele realmente é: um processo construtivo.
De um modo geral, não é fácil reconhecer e apreciar as diversas oportunidades de alegria que temos, e que perdemos exatamente por sobrevalorizar os pequenos entraves e contratempos.
Outro dia, li numa crônica que os momentos realmente importantes estão ligados a "coisas pequenas, que nem foram notadas por outras pessoas: cenas, quadros: um filho empinando uma pipa na praia; noite de insônia e medo num quarto escuro, e do meio da escuridão a voz de um filho que diz: ´eu gosto muito de você!`; filha brincando com uma cachorrinha que já morreu, um velho, fumando cachimbo, contemplando a chuva que cai sobre as plantas e dizendo: ´Veja como estão agradecidas!´Amigos. Memórias de poemas, de estórias, de músicas."
E fiquei desfiando para mim mesma uma coleção de imagens de momentos assim simples, que preenchem nossa vida de forma definitiva, e nós só vamos nos dar conta disso muito mais tarde...Levar as meninas para a escola, preparar rabanadas no final do domingo, contar estórias sem fim, que continuavam meses a fio, ver o mar a primeira vez, o cheiro dos pêssegos da Praça da Alfândega de Porto Alegre, um pacote que chega pelo correio...
Rápidas, nem sempre fáceis, as experiências só têm a sua real importância reconhecida tempos depois de vividos. Como os paralelepípedos de Proust, chave para uma viagem "... que é uma impressão do passado... e que só podemos conhecer quando preservada, pois no momento em que a vivemos, ela não se apresenta à nossa memória, mas ao centro das sensações que a suprimem".
Dito de maneira menos elaborada, o que vivemos aqui e agora consome atenção demais enquanto estamos vivendo, para que possamos avaliar o seu impacto, e requer tempo - esse enigmático componente - para fazer sentido no novelo de uma vida.
Olho novamente para os buracos cavados na terra e que começam a se encher de ferro e concreto, e penso que um dia, ao consultar meu baú de tesouros, talvez encontre imagens dessa manhã de segunda feira, de céu azul, em que eu olhava para tudo isso preocupada com os custos crescentes do aço, e deixava passar um pedaço importante das emoções e forças potenciais do concreto que se ergue para edificar e construir o casulo de uma nova etapa da nossa vida.
sábado, junho 19, 2004
Os que escrevem e os que lêem
De fato, tem ocorrido uma fantástica proliferação dos blogs, mesmo se excluirmos os diários adolescentes e pensarmos somente naqueles com temas que valem a pena ser lidos.
A leitura do post me levou a refletir um pouco sobre o dilema escritores x leitores, sem nenhuma análise quanto à qualidade do conteudo.
Assim, me parece que há realmente uma relação muito direta entre a quantidade de pessoas que escrevem e as que lêem, e esse não é um fato recente.
Mas a questão tomou outra dimensão, e só veio á tona, depois que a barreira de publicar caiu por terra, derrubada pela facilidade e simplicidade de publicar via blog.
A diferença é que as pessoas que escrevem porque é vital para elas, sempre o fizeram e continuam a fazê-lo, seja nos cadernos á la Proust, seja nos blogs de hoje.
Em paralelo, há um universo de pessoas, em cuja categoria me incluo, que gosta mais de ler e, ás vezes arrisca algumas linhas, sem qualquer pretensão que não um diálogo com meia dúzia de amigos.
Assim, uma grande maioria de blogueiros publicam esporadicamente sua visão de mundo e usam os blogs como mecanismo de relacionamento ou até de terapia. Até mesmo por essa razão são leitores de primeira linha.
Por outro lado, aqueles que escrevem porque está no DNA, encontram nessa multidão de publicadores eventuais um público assíduo, pronto a compartilhar e a quebrar o antigo vale existente entre o escritor e seu público.
Além disso, o escritor e o leitor agora não estão sujeitos á ditadura do mercado das editoras como ocorre hoje na música. Será fantástico quando esse fenômeno se repetir na música, pois não seremos obrigados a ouvir somente o que o mercado fonográfico nos impõe, com critérios que permitiram que o pagode afogasse a música brasileira de qualidade.
Com os blogs, as pessoas de talento que não tinham nenhuma forma de fazer chegar aos leitores a sua produção, têm agora o meio para fazê-lo. Do lado leitor, o volume dificulta um pouco achar as pérolas que estão disponíveis.
É um fantástico equilíbrio, com um potencial multiplicador ainda desconhecido pois os blogs ainda são de acesso muito restrito, pois muitos leitores e escritores não estão ainda nesse círculo.
São comuns os blogs com mais de mil visitantes por mês entre os que costumo visitar. É um volume de leitores nada desprezível. Quantos livros de estreantes vendem essa proporção?
É por isso que acredito que enquanto proliferam os que escrevem, numa proporção bem maior se multiplicam os que lêem.
A Leitora - Auguste Renoir
Musée d'Orsay, Paris
quinta-feira, junho 17, 2004
Amigos de verdade
Sempre os achamos muito simpáticos, mas não somos de aproximação fácil, assim, por muito tempo, nos mantivemos à pouca distância mas sem chegar muito perto.
Na quinta série, Cecília conheceu a Juliana, que muito rápido se tornou a melhor amiga. Os constantes contatos motivados pela amizade das nossas filhas, por anos a fio, criou um convívio típico de pais, que só conversam sobre destino e horários dos filhos.
Quando as meninas foram para o segundo grau, conversamos mais proximamente para compartilhar as visões sobre a melhor escola para elas. Daí para frente os contatos foram se intensificando.
No Reveillon de 2002 fomos juntos em Caldas Novas e lá ficamos por uma semana, curtindo as delícias das águas quentes e uma honesta champagne á beira da piscina. E, fato inesquecível, consumimos a modesta quantia de 200 unidades de bolinhos de arroz com queijo.
Uma semana foi mais que suficiente para descortinarmos melhor a personalidade dos nossos amigos e nos tornarmos bem proximos.
Assim, descobrimos na Lueli um bom gosto nato, associado a um equilibrio e bom humor infinitos. Excepcional na cozinha, faz uma torta de limão que nenhum mortal pode esquecer.
Elegante e refinada, consegue se mostrar de uma simplicidade inacreditável, além de ter um dom natural para decoração e para as plantas, em particular as orquídeas. Aprendo sempre com ela e com sua forma leve de ir fazendo acontecer.
No Chico descobrimos uma enorme vontade de aprender, de ler, de conhecer e de viver. Cheio de energia, gosta de ler, de conversar, de conviver, de viajar, de vinho, de cinema e de boa música.
Conservador em qualquer assunto ligado á família, consegue adotar rapidamente as novidades da tecnologia e ser aberto para descobrir outras formas de pensar.
Desde aquele fantástico reveillon não temos poupado oportunidades de estarmos juntos, em encontros onde um bom vinho nunca está ausente. São momentos muito agradáveis, que nos deixa com uma sensação de tempo bem aproveitado, de prazer mesmo.
Ao ler a carta que ele publicou como despedida do seu blog, fiquei emocionada com a sensibilidade e grandeza de espírito do Chico.
Assim pensei que eu, blogueira bissexta que publica muito esporadicamente, talvez pudesse interceder para que ele mantivesse o Tempo Destino, pois vai chegar uma hora que vai ser bom compartilhar um texto, uma imagem, uma emoção.
E também dizer que eles fazem a diferença, pois sem nos darmos conta foram aos poucos participando de nossa vida e a tornando melhor.
E que é muito bom ter amigos como eles...