terça-feira, outubro 21, 2003

Breve resposta para Milton

Não, não verás aqui blogs literários.

Aqui, os temas são os amores, os sabores e a falta deles, estes sim, ingredientes e motivo de boa literatura.

Se o mundo está dividido entre os que escrevem e os que lêem, pertenço ao último grupo. Crítica literária é especialidade do Zadig, consumidor ávido e poeta de primeira linha.

Conheço mais da alquimia do fogo, que tranforma carne em prazer, que produz cheiros que devassam a alma em busca de lembranças perdidas, que revela texturas inacreditáveis que nos fazem fechar os olhos e respirar fundo.



E quando quieta e pensativa, as imagens dos livros e filmes me vêem como um recurso para compreender a vida e as pessoas, traçar paralelos entre a ficção e o cotidiano que me cerca, uma espécie de ilustração privativa, só minha, no máximo compartilhadas com os amigos dos blogs.



E que delicia de diálogo virtual, onde cada insight se completa no desejado comentário do amigo, cada um merecedor do melhor da sua atenção...

Não, não espere de mim blogs sobre literatura, e sim reflexões sobre a vida e as pessoas. Mas espere sim que eu aguarde ansiosa as publicações dos amigos, incluindo os blogs literários, lidos com enorme prazer nas pequenas janelas de tempo livre que a profissão impõe, o seu entre os mais desejados.

sábado, outubro 18, 2003

Balzac e Manon




Balzac entrou na nossa vida por acidente.

Há seis anos atrás Princesa, a gata da casa, morreu afogada na piscina, pois um acidente a deixara cega emeio incapacitada. Era uma persinha puro sangue, de um cinza azulado, oficialmente tida como de cor fumaça, olhos cor de cobre e de uma beleza rara. Tinha a personalidade de acordo com seu nome. Era mesmo uma Princesa, no porte, na postura e na preguiça, como quem sabia que a comida apareceria em seu prato a tempo e hora.

Cecilia, à época com 12 anos, abriu a janela no domingo de manhã e viu boiando um objeto peludo. Pressentindo o desastre, saiu correndo e gritando. Tarde demais.

Aquele domingo transcorreu com olhos vermelhos e fungados de toda a família. Ainda por cima o Beto ia para Manuas a trabalho naquela noite, ficando fora toda a semana.

Na segunda feira, as lágrimas de Cecília e Maíra se juntaram aos suspiros da Sônia, nossa secretária há mais de dez anos.

Para acelerar a mudança de astral pensei num plano simples: comprar um outro filhotinho. No horário de almoço vasculhei o jornal de cabo a rabo e nada de filhotes de gato. Várias ligações para lojas especializadas sem sucesso. Duas horas depois e já sem esperanças concluí que pouca gente compra e vende gatos, só há disponibilidade de filhotes de cachorro, pelo menos em Goiânia. De repente me passou uma idéia louca pela cabeça: e se fosse um cachorrinho? Desde que fosse educado e bem comportado, seria uma experência nova e interessante numa casa que, até então, só abrigara felinos.

O veterinário, nosso amigo que ajudara a salvar a vida de Princesa quando do acidente que a deixou cega, recomendou procurar um filhote da raça Collie.

Foi assim que ele chegou em casa: fofinho, moleque, alegre, um encanto. O nome foi escolhido rapidamente: Balzac. Nome curto, fácil de pronunciar e representativo para toda a família. Em pouco tempo se tornou o filho mais novo e o centro das atenções de todos na casa. Educadíssimo e obediente, nunca deu trabalho. Respeita os limites estabelecidos apesar da carência ancestral. Se humilha sem nenhum pudor se for por um agrado ou afago. Tosse como um condenado com a fumaça de charuto que, ocasionalmente, é obrigado a suportar para ficar ao lado do dono.

E agora, também por acidente, Manon vai entrar na família. Vira lata de raça pura, preta e branca, tem os olhos mais doces que uma gatinha pode ter. Sem lenço e sem documento, é filha de uma gata de rua, mendiga. Não tem mais que um mês de vida, e terá que se defender de eventuais ataques de ciúme do Balzac, não muito amigo de felinos, pássaros e aviões, que ele crê que tem obrigação de afugentar com latidos fortes e ameaçadores.

quarta-feira, outubro 15, 2003

dos Prazeres da Mesa

Chego de São Paulo com uma séria avaria na coluna, prêmio por carregar o lap-top toda a tarde, incluindo três horas de aeroporto em virtude dos tradicionais atrasos dos vôos do final do dia.

Dificil sentar e levantar. Ou fico só sentada, ou só em pé. A massoterapeuta recomendou cama. A dor incomoda, mas não chega a impedir os movimentos. A pilha de compromissos assumidos me manda ir para empresa.

Entre uma escolha e outra, vence a empresa, até porque nessas circunstâncias não há nenhum possibilidade de prazer na cama, mas dá pensar seriamente no prazer da mesa. Encomendo um pré-preparo de um pequeno pedaço de bacalhau a ser feito desfiado com cebolas, batatas, azeitonas, ervas e carinho.

A noite, reservo meia hora para preparar um arroz branco, soltinho, com leve nuance de alho. A família de meu pai, de origem italiana, acreditava que não saber cozinhar era motivo suficiente para deserdar uma filha.

Do lado da minha mãe, a preparação de arroz branco e soltinho sempre foi ponto de honra. A lei da casa é que arroz que se preze pode ser apreciado puro, sem nenhum complemento.

O teste das canditadas a esposas de meus seis irmãos era fazer um arroz a ser apreciado pela dona Carmem, minha mãe, pessoa de grande coração e pronta para o perdão, exceto em questões culinárias.

Cercada à direita e à esquerda, entrei nos anos 70 apta a pilotar um fogão, na completa contramão dos tempos. Nem mesmo a tendência liberalizante da outra colega na engenharia elétrica, éramos duas garotas entre 114 rapazes, conseguiu minimizar o efeito de anos de influência familiar.

Foi com todo o rigor exigido pelo prato que preparei o tal arroz branco, soltinho e fumegante, orgulho de família, enquanto meu companheiro servia poemas de Augusto Meyer e concerto de Tchaikóviski.

Servidos o arroz e o bacalhau, devidamente escoltados por um vinho decente e acessível, fiquei pensando em como os prazeres da mesa são relevantes.

Na escala de importância da maioria dos mortais, estão os prazeres da cama, seguidos de perto pelas delícias da mesa.

E quem melhor que Eça de Queiroz, que faço questão de transcrever, para retratar esse prazer excepcional?

“Em palácio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente, como nas rústicas quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panelas de barro e quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas arregaçadas, guisam um banquete que faria exultar o velho Júpiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu e mais nobremente soube comer, desde que há Deuses no Céu e na Terra.

Quem nunca provou este arroz de caçoula, este anho pascal assado no espeto, estas cabidelas de frango coevas da Monarquia, que enchem a alma, não pode realmente conhecer o que seja a especial bem-aventurança, tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se chamava a comezaina (...) E a quinta depois... oferece, mais que nenhum outro paraíso humano ou bíblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e risonho, deste arroz e deste anho”


domingo, outubro 12, 2003

Do final de domingo

Quase dezoito horas de domingo. O final de semana perfeito, exceto pelos garantidos kilos a mais, começa a se despedir em raios de sol amarelados, que entram sem convicção pela janela, junto com um bando de muriçocas.

O locutor da Nostalgie anuncia a musica " Fio Maravilha" cantado em francês pela Nicoletta e garante aquele tom de voz meio final de domingo, até porque para ele já são onze horas da noite.

Penso nesse sentimento universal que nos acomete no final do domingo, no final do verão, no final da festa, no final das férias.

Acho que está ligado principalmente ao sentimento de "final". Aquele esvaziamento emocional antes de começar de novo. Sim, porque amanhã tudo recomeça, tão certo como o sol se porá daqui a pouco e reaparecerá amanhã cedinho.

Também me vem á cabeça uma frase do Luiz Fernando Veríssimo que adoro: "Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo."

Poderia acrescentar: para os finais de domingo, coragem...




quarta-feira, outubro 08, 2003

da Música Francesa

Cecília, meu bebê de 18 anos, que é também estudante de Engenharia na USP/São Carlos, esteve por aqui este final de semana e comentou sobre a beleza absoluta da música "Rive Gauche" de Alain Souchon.

E arrematou, perguntando porque não se acha discos do Souchon.

Pobre música francesa condenada ao mais absoluto ostracismo no Brasil depois do apartheid fonográfico, que definiu as regiões de domínio das grandes gravadoras.

No loteamento global, o Brasil ficou sob os auspícios da produção americana, com tudo o que isso tem de bom e de ruim. O lado bom é que qualquer loja de discos de bairro tem três ou quatro discos de John Pizzarelli, de Ella Fitzgerald e de Nina Simone.

No entanto, gerações inteiras desconhecem a existência de Francis Cabrel, Maxime Le Forestier, J. J. Goldman, Gerard Manset, Julien Clerc, Alain Souchon...

O contrário não é verdadeiro. Os franceses conhecem e adoram a música do mundo, com especial amor pela nossa. João Bosco, Chico Buarque, Djavan, Milton Nascimento são muito conhecidos por lá.

Experimente uma pesquisa no Google com respostas em francês para "Chico Buarque". São 1330 referencias. A mesma pesquisa em sites do Brasil para "Alain Souchon" traz 47 entradas, a maioria tendo como referências a embaixada francesa ou a Aliança Francesa.

Estava em um show do François Feldman no Casino de Paris, e fiquei pasma ao reconhecer a cantora que se apresentava num excepcional solo: Evinha, sim aquela linda voz do Trio Esperança de "Casaco Marrom" e "Cantiga por Luciana".

Nada a fazer contra o apartheid cultural, a não ser ouvir a Radio Nostalgie pela Internet e curtir com enorme prazer a voz de Francoise Hardy ou de Nicolas Peyrac.


terça-feira, outubro 07, 2003

da Ausência



Procurei o Aurélio na estante para indagar o exato sentido da palavra "Ausência", sem sucesso. Certamente ele está perdido entre os três mil livros que povoam essa biblioteca caótica, mantida sob um clima de desordem organizada por seu proprietário majoritário (e que não sou eu).

Minha ausência do blog: devo ter me sentado vinte vezes na frente do teclado, e preferido ler os blogs dos amigos, abrir o joguinho de cartas Spider e ouvir a radio nostalgie pela Internet. Essa é minha melhor receita de esvaziar a cabeça em dias atordoados.

Outro dia li de uma atriz famosa que ela se distrai das querelas do cotidiano lavando roupa no tanque. Cada um tem a sua receita para afastar as neuras.

Um tanque de roupas é demais, mesmo para mim, geração anos 70.

Prefiro ler os blogs dos amigos, onde aprendo a conhecer um pouco melhor a sensibilidade do Guiu, a emotividade do Milton, a erudição do Zadig, o humor do César, a simpatia do Marcos do Meia Pataca e por último o charmoso blog do meu queridissimo amigo Chico Sena, melhor anfitrião que conheci nos últimos anos.

De acordo com o Zadig, escrever para o blog é sentar e escrever e ponto. Deve ser assim mesmo para algumas pessoas. Nada de tecer teses de alta profundidade duas vezes por mês.

Acho que ele tem razão.

Assim, na ausência do dicionário, vamos simplificar e ir pela minha própria percepção da palavra Ausência: oposto de presença, sentimento de vazio, de incompletude. E por consequência da palavra Presença: sentimento de proximidade, de existência.

Ave César.

quarta-feira, setembro 17, 2003

DESEJO

Carlos Drumond de Andrade

Desejo a você,
fruto do mato,
cheiro de jardim,
namoro no portão,
domingo sem chuva,
segunda sem mau humor,
sábado com seu amor,
filme do Carlitos,
chope com amigos,
crônica de Rubem Braga,
viver sem inimigos,
filme antigo na TV,
ter uma pessoa especial,
e que ela goste de você,
musica de Tom com letra de Chico,
frango caipira em pensão do interior,
ouvir uma palavra amável,
ter uma surpresa agradável,
ver a banda passar,
noite de lua cheia,
rever uma velha amizade,
ter fé em Deus,
não ter que ouvir a palavra "não",
nem nunca, nem jamais adeus.
Rir como criança,
ouvir canto de passarinho,
sarar de resfriado,
escrever um poema de amor que nunca será rasgado,
formar um par ideal,
tomar banho de cachoeira,
pegar um bronzeado legal,
aprender uma nova canção,
esperar alguém na estação,
queijo com goiabada,
pôr-do-sol na roça,
uma festa,
um violão,
uma seresta,
recordar um amor antigo,
ter um ombro sempre amigo,
bater palmas de alegria,
uma tarde amena,
calçar um velho chinelo,
sentar numa velha poltrona,
ouvir a chuva no telhado,
vinho branco,
bolero de Ravel...
e muito carinho meu!



A partir de uma sugestão do Marcos, do blog Meia Pataca, que me disse que este poema do Drummond tem algo a ver com o post "De Cheiros e Lembranças"
  • Meia Pataca

  • segunda-feira, setembro 15, 2003

    De cheiros e lembranças

    Domingo de manhã, saí muito cedo para comprar frutas frescas e pão para o café da manhã. Era domingo de Fórmula Um e prometia ser uma corrida emocionante...

    Adoro os cheiros da padaria. Pão quentinho recém assado, pão de queijo, laranja fresca, sanduiches e café... Aquela hora da manhã esses cheiros são capazes de despertar os sentidos de um monge.

    Na frutaria esbarrei numa montanha de pêssegos organizados sobre uma banca, e isso fez cair umas três frutas. Meio sem jeito, apanhei os pêssegos no chão e os devolvi para a pilha bem organizada.

    Foram poucos segundos, mas foi o suficiente para sentir o cheiro forte dos pêssegos, e em segundos eu estava em Porto Alegre, final de ano, calor, e os pêssegos povoando de cheiros a Praça da Alfândega e a descida da Borges de Medeiros.

    Dezembro era mês de férias, e de Natal.

    Ás vezes sinto saudades de Porto Alegre...

    Não foi um período fácil da minha vida, estudando todo o dia na Escola de Engenharia e á noite fazendo um serviço imbecil: somar cheques das 8 da noite ás quatro, cinco, até seis da manhã. Saia do trabalho, lavava o rosto com água fria e ia enfrentar as aulas de Cálculo ou Eletrônica.

    No final do semestre o esforço era tamanho, que a imagem que me vinha à cabeça sobre minha luta era a do salmão enfrentando cachoeiras na contra corrente. Mais de vinte anos se passaram, mas as sensações parecem de ontem...

    Ainda com o cheiro de pêssego na mão eu dirigia de volta à casa, mas sem deixar de pensar no poder que alguns cheiros e sabores têm sobre nós.

    Impossivel não lembrar do fantástico romance "No Caminho de Swann", de Marcel Proust. A obra traz uma das mais famosas passagens da literatura, quando o narrador come uma "madeleine" molhada no chá e vê sua consciência mergulhar involuntariamente no passado.



    Ao sentir o sabor do bolo embebido no chá, ele é transportado para o passado, pois aquele era exatamente o mesmo gosto do pedaço de madeleine que a enferma tia Leonie lhe oferecia quando criança, na casa de Combray, cidade em que costumava passar as férias com os pais. Ao reconhecer o gosto da madeleine, toda Combray e seus arredores tomam forma e saem da taça de chá para o presente, vindo à tona junto com seus “eus” anteriores e todas as suas lembranças.

    A partir de Proust penso na própria cidade de Combray, onde chegamos de carro, vindos da Normandia, e conseguimos já no final da tarde uma visita sem guia ao museu de Proust, incluindo um jardim sombreado, onde uma florzinha tinho cheiro de dama da noite, forte o suficiente para enjoar meu estômago...

    Ainda a caminho de casa penso em tantos cheiros e sabores de nossa vida, vinculados a imagens do passado, sensações vivas, cheiros que são pura lembrança e emoção.

    E penso como é forte a associação entre bons momentos e os sabores e cheiros que os marcaram...



    Museu Marcel Proust em Illiers-Combray

    domingo, setembro 07, 2003

    Dos desencontros

    Cada encontro está carregado de perda. Ou de perdas. Ou é invadido por uma inexplicável melancolia. O encontro humano é tão raro que mesmo quando ocorre, vem carregado de todas as experiências de desencontros anteriores. Cada desencontro é perda porque é o oposto do que teria sido uma possibilidade de afeto.

    É a experiência de desencontros que ensina o valor dos raros encontros que a vida permite.

    Mas por isso ou por aquilo, cada encontro está carregado de perda. E no ato de sentir-se feliz associa-se a idéia do passageiro que é tudo, do amanhã cheio de interrogações, da exceção que aquilo significa. A partir daí, uma tristeza muito particular se instala.

    Há sempre uma despedida em cada alegria. Há sempre um E depois? após cada felicidade. Há sempre uma saudade na hora de cada encontro. Antecipada."

    Que intenso é o efeito que a coleção de encontros e desencontros que acumulamos na vida tem sobre a nossa personalidade, a forma como nos relacionamos com as pessoas e como interpretamos as diversas atitudes das pessoas importantes para nós.

    Durante a vida, enquanto adquirimos maturidade, bens, conhecimentos, títulos, peso, cabelos brancos, também armazenamos perdas. Perdemos pessoas importantes, algumas pela inevitabilidade da morte, outras porque simplesmente abandonamos ou nos abandonaram. Aos poucos vamos nos distanciando da imagem da juventude, cada vez mais idealizada e distante do que nos mostra o espelho.

    Desistimos de sonhos e crenças, soterramos a maior parte das nossas expectativas de carinho sob muita praticidade e um jeito mais moderno de ser; aprendemos a censurar a gargalhada espontânea, a nossa ingenuidade e pureza, a resposta rápida e sincera, a pergunta pessoal e como conseqüência perdemos a naturalidade.

    Obrigados a criar defesas, procuramos esconder a fragilidade da criança sob a aparência do adulto e nos tornarmos sérios, práticos, professorais, ajuizados e, finalmente conseguimos perder a nós mesmos.

    Somente em raros momentos de descontração, em situações que consideramos seguras, conseguimos ser livres e passar por cima da autocensura. Por instantes, somos autênticos. É que não é fácil correr o risco de ter nossas palavras mal interpretadas, acostumados a expor nossas forças e a esconder nossas fraquezas.




    Reflexões a partir de texto de Arthur da Távola e SLT

    terça-feira, setembro 02, 2003

    Das cores

    "cores do meu mundo...
    ...cores da minha vida!"



    Como não tinha percebido antes?

    Há uma cor para cada fase da vida, para as faces do mundo interior, e para a natureza.

    No inicio da vida adulta a descoberta do lilás: mistura equilibrada de rosa e azul claro, a combinação perfeita para definir o encontro do masculino e femino. Lilás nas cortinas e na cama. E a profunda busca de encontrar a alma irmã, o lado azul claro que me faltava...

    Os tons das folhas dos plátanos em todas as suas variações sempre definiram o estado de espírito da estação. Nas ruas de Porto Alegre, as folhas no chão indicavam que o semestre estava próximo de terminar, e com ele as temíveis provas da Escola de Engenharia.

    Na época, os irmãos Kleiton e Kledir, começavam a estrear seus primeiros passos na música, e Kleiton, meu colega de sala na Escola de Engenharia da UFGRS, chegava de olhos vermelhos, com cara de quem dormiu pouco. Tinhamos isso em comum: ele passava as noites em sonhos de música, e eu somava cheques numa fria sala da CEF.

    O resultado era o mesmo: ambos bocejando e com os olhos vermelhos, tentanto compreender as demonstrações de teoremas impostas pelo Cálculo III, que aos poucos ficavam distantes, remotas, impalpáveis... E a voz do professor ia tomando entonações suaves, melodiosas e que embalavam um cochilo duramente reprimido quando percebido. E tudo era meio pálido, em tons pasteis, de olhos com dificuldade para fazer a diferença entre as cores.

    O branco e preto, numa fase já mais recente, minimalista, de quem já sabe o que quer e não precisa se perder nos detalhes...

    Os tons de terra, como simbolo do aconchego, do carinho, do desejo de dividir. O amarelo do ipê, alegria isolada no mês de agosto.

    Cores do meu mundo... Cores da minha vida...



    Kleiton e Kledir
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    Trem das Cores
    Caetano Veloso

    A franja da encosta, cor de laranja
    Capim rosa chá

    O mel desses olhos luz
    Mel de cor ímpar

    O ouro ainda não bem verde da serra
    A prata do trem
    A lua e a estrela
    Anel de turquesa

    Os átomos todos dançam
    Madruga, reluz neblina

    Crianças cor de romã entram no vaguão

    O oliva da nuvem chumbo ficando pra trás da manhã
    E a seda azul do papel que envolve a maçã

    As casas tão verde e rosa
    Que vão passando ao nos ver passar
    Os dois lados da janela

    E aquela num tom de azul quase inexistente
    Azul que não há
    Azul que é pura memória de algum lugar

    Teu cabelo preto, explícito objeto
    Castanhos lábios
    Ou pra ser exato lábios cor de açaí

    E assim trem das cores
    Sábios projetos tocar na central
    E o céu de um azul celeste, celestial